Que bom que você está aqui!

É com prazer que te recebo neste espaço! Esta "casa" virtual está em permanente construção e em cada "cômodo" há uma inquietante necessidade de fazer diferente! Meus textos, relatos e imagens buscam apresentar a você os passos que constituem minha caminhada pessoal, profissional e acadêmica. A partilha que faço não intui caracterizar-se por uma postura doutrinária, autoritária ou impositiva-opressora, mas ao contrário, apresenta-se como ato solidário (jamais solitário) de contribuição à discussões humanas, planetárias e éticas!



Como educador me vejo no compromisso de participar do processo histórico de libertação dos oprimidos, marginalizados e esquecidos, a começar por mim. Despindo-me de qualquer resquício de arrogância, prepotência e soberba apresento-me como aprendente num contexto de intensa renovação de conceitos e atitudes!



Assim convido-o a juntos pensarmos em nossa condição de partícipes da grande Salvação! Salvação plena do homem e da mulher místicos, políticos e planetários!



Fraterno abraço!








Casa Rosada - sede do governo argentino. Em frente está a Praça de Maio. É um local em que é possível conhecer um pouco da história e da cultura argentina.

domingo, 26 de outubro de 2014

O fio educador: uma metáfora necessária à análise do currículo escolar

Certo dia Dom Hélder Câmara, teria dito: “Diante do colar – belo como um sonho – admirei, sobretudo, o fio que unia as pedras e se imolava, anônimo para que todos fossem um...” Desta expressão inspiram-se muitas análises e discussões, seja de cunho teológico, cultural ou educativo. Particularmente evoco o educativo para tratar de uma metáfora necessária que nos permite estabelecer paralelos entre a feitura de um colar de pérolas e a formação de um ser humano. Como disse Dom Hélder, não haveria como unir as pérolas e fazer um colar sem que houvesse a presença discreta, imperceptível do fio que praticamente se anula diante da beleza da obra final. Mas que fio é esse? Quem o escolhe? Que “qualidades” deve ter esse fio? Participando de discussões acerca da apresentação de uma proposta de ensino, que seja significativa ao tempo e espaço em que vive-se contemporaneamente, atrevo-me a dizer que este fio é o currículo. É ele que une conceitos (pérolas) materializando um ensino significativo e que seja capaz de habilitar as pessoas a intervir na realidade. Um currículo (fio) capaz de compreender a preciosidade de cada conceito ao longo do percurso de formação dos sujeitos, será por excelência um espaço desprovido de vaidades pessoais ou pré-conceitos. Do contrário o fio será mais visível que as pérolas e o colar perderá sua beleza e seu encantamento. A escolha do currículo (fio) cabe essencialmente ao professor, conhecedor de seus alunos, de seu contexto e de suas intenções. Esta escolha será portanto, um ato político que implicará em definir estratégias para que os conceitos sejam consolidadores de grande obra. Se o fio for inadequado poderá danificar as pérolas, produzir um colar sem beleza e portanto, de pouco valor. Para que o fio possa fazer valer o colar e enaltecer as pérolas, necessita ser discreto, flexível e resistente. Da mesma forma o currículo. Sua discrição se dá quando os métodos e conceitos nele apresentados, auxiliam na formação que é uma característica própria de cada pessoa. Isto sim deve ser explorado, exposto e evidenciado. Flexibilidade e resistência são características fundamentais para um currículo que se proponha a atender as premissas básicas de sua função. Será flexível o suficiente para acomodar o contexto e a historicidade de alunos e professores e resistente na medida em que coordena um processo de aprendência, no qual os sujeitos possam compreender e intervir no mundo em que vivem para além de seu próprio contexto e historicidade. E o colar? O que é mesmo o colar de pérolas? Muitas são as possíveis respostas. Podemos dizer que o colar pode ser o conjunto de saberes, conceitos e ciências que fazem a humanidade caminhar e existir para todos os seres humanos. É para isso que o fio existe... Para unir saberes, conceitos e ciências e fazê-los brilhar!

Opinião pública, opinião popular e democracia

Do ponto de vista estatístico uma eleição é uma consulta à toda a população de um território (cidade, estado ou país) acerca de quem deve comandar seus destinos. Antes disto, os métodos utilizados eram os mais diversos desde a violência física até a simples sucessão hereditária como ainda hoje temos em várias partes do mundo que estão mergulhadas em carnificinas seculares ou povos dominados por dinastias milenares. A Grécia trouxe a experiência de democracia que se aprimorou e se alastrou pelo mundo como o melhor modelo a ser praticado politicamente. Mas a aplicação de um modelo dificilmente obedece o que os moldes lhe propõe. A consulta popular deveria expressar unicamente a opinião livre dos cidadãos sobre o projeto que representa o que há de melhor naquele momento para os interesses da coletividade. É a consagração da opinião pública ao avaliar as condições daquele território, naquele momento diante das possibilidades que se apresentam. Ocorre que a consulta popular é “preparada” de forma a desconstruir sua própria função. Inicialmente é preciso perceber que há poucos projetos originais, autênticos e exequíveis. O que se tem visto, são roteiros empobrecidos pela sistemática tentativa de desprestigiar o adversário sem apresentar um projeto alternativo consistente. Sem contar que a liberdade de escolha encontra-se maculada por propagandas espetaculosas e recheadas de mensagens que buscam a todo o instante, induzir o eleitor à mera avaliação pessoal do candidato e não do eventual projeto. Mas o mais grave em tudo isso é que a opinião pública vem sendo sorrateiramente substituída pela opinião popular. Esta ecoa sobre uma grande massa historicamente manobrada por uma elite que ao longo de séculos lhe concedeu algumas migalhas ou simplesmente a ignorou. Fizeram-na acreditar que a pobreza e a miséria eram fundamentalmente um caminho natural para quem nasceu pobre e miserável. Recentemente viu-se que é possível sair da miséria extrema engrossando as migalhas e oferecendo oportunidades, porém mantendo um clima de constrangimento sutil e velado. Esta grande massa de manobra, geralmente pouco escolarizada se vê finalmente abandonando a margem econômica da sociedade e não quer voltar para lá. A opinião popular desaprova a corrupção por exemplo, mas sua atenção maior está em manter ou melhorar, mesmo que singelamente, sua condição. Não há uma preocupação com o coletivo, com o público. Estão errados? Claro que não. Afinal, podem finalmente sentir-se gente tanto quanto qualquer outro cidadão. E aí está a resposta de uma pergunta recorrente: afinal, se todos querem mudanças por que estão votando nos mesmos? O fato é que desejam uma mudança coletiva, porém sem que isso represente uma perda em relação o que lhe foi dado ou conquistado individualmente. Falta-lhe a liberdade da necessidade, ou seja reconhecem que é preciso mudar mas temem que a mudança lhe ameace a sobrevivência. E enquanto um grande contingente de eleitores veem uma perspectiva real ou imaginária de que sua sobrevivência pode ser ameaçada por um ou outro possível governante de plantão, não há como se imaginar uma democracia plena. Assim, vive-se uma democracia que se movimenta ao sabor da opinião popular, fundamentada na dependência, na opressão e no medo disseminado pelas mais diversas correntes políticas. Vive-se assim uma sequência de projetos de poder pelo poder como se o Estado pudesse ser loteado ou até sorteado. Ideologias cedem lugar à propaganda; pensadores cedem seu espaço à marqueteiros e a democracia converte-se num grande negócio.

Os ornitorrincos que nos esperam nas urnas!

O ornitorrinco é um animal semiaquático típico da Austrália e Tasmânia, possui bico semelhante ao de um pato, além de ser ovíparo (põe ovos). Mas por ter o corpo coberto por pelos e mamar é classificado como mamífero. Trata-se de um animal bastante incomum e pouco conhecido à grande maioria da população. Ao dizer que o referido animal irá às urnas não estamos falando da escolha de um mascote, mas fazendo um comparativo ao que o eleitor encontrará quando teclar para depositar seu voto: as coligações. Nos últimos dias os partidos políticos demonstraram claramente que estão de fato partidos. Como já se viu noutras vezes, coligações são construídas para atender propósitos nem sempre muito republicanos. Os que se odiavam, agora tecem verdadeiras declarações de amor entre si. Os que, há alguns dias, andavam abraçados, hoje se declaram absolutamente traídos por seus antigos parceiros. O que dizer então das ideologias? Direita e esquerda tornam-se mão única. Partidos políticos são criados sem qualquer preocupação em dar-lhe uma identidade ideológica. Defendem o que lhe parece conveniente, sem convicções ou posturas definidas. Já os partidos antigos sepultaram suas ideologias com seus antigos líderes. A estes líderes rende-se a homenagem do esquecimento. E as prioridades? Educação, saúde, mobilidade urbana e infraestrutura sedem lugar à disputa por cargos e postos e à soma de alguns segundos no horário eleitoral gratuito. Um ministério, uma secretaria ou uma diretoria convencem mais que convicções, lutas e velhos líderes. Como disse um senador a respeito de seu partido, trocamos nossa história pelo quartinho dos fundos de um ministério. E diante deste cenário está o eleitor! Ao votar para um cargo visualiza seu partido aliado ao maior adversário na disputa de outro cargo. Mesmo que queira, não poderá votar por uma ideologia, por uma convicção ou por uma prioridade. Definitivamente necessita de certa genialidade para encontrar o melhor, ou como muitos diriam, o menos pior. Eis que lhe aparece o ornitorrinco: uma ave que mama ou um mamífero que põe ovos? Um reacionário conservador de esquerda ou um revolucionário progressista de direita? Assim como aves e mamíferos são absolutamente diferenciados, também os partidos políticos deveriam sê-lo. Sabe-se que foram, mas os cruzamentos (coligações) produziram verdadeiros ornitorrincos eleitorais. Os adversários, que em outros tempos foram parceiros, não se manifestam como deveriam, pois em breve poderão reatar sua parceria. Assim, o eleitor por mais que queira compreender apenas contempla, afinal não há muito mais para se fazer. Vota, paga impostos, padece, vai às ruas, mas sem líderes e sem ideologias consistentes perde o rumo e conforma-se. Afinal o ornitorrinco é um fato consumado, não há como negar! Defini-lo é uma questão de interpretação.

domingo, 23 de março de 2014

50 anos de uma tragédia Brasileira: um tributo e uma reflexão!

A “história oficial”, por muito tempo, afirmou que em 31 de março (ou 1º de abril) de 1964 ocorreu a queda de um governo frágil, comandado por um governante fraco com tendência comunista e a ascensão de um governo moralizador, progressista e capaz de reconduzir o Brasil ao “bom caminho”. Para fazer isso todas as medidas corretivas e de consolidação do novo regime se justificaram, assim como o controle da imprensa e até mesmo do pensamento de intelectuais, artistas e lideranças populares. Esta é a cortina que escondeu uma das maiores tragédias de nosso tempo. 50 anos depois, estamos reescrevendo uma parte da história! Inicialmente é preciso reconstruir a figura e o pensamento de João Goulart (Jango). Seu governo contou com personagens da envergadura de Darcy Ribeiro, Waldir Pires, Celso Furtado, San Tiago Dantas e tantos outros, que ao seu lado propuseram grandes reformas que iriam transformar e revigorar o Estado brasileiro. Os golpistas sabiam da seriedade de seu governo e de sua figura, tanto que fizeram de tudo para impedi-lo de assumir o comando do governo e percebendo o seu fracasso, tiraram-lhe grande parte do poder decisório com a invenção do parlamentarismo. Invenção rechaçada pela expressão da maioria votante em plebiscito. Acusado de comunista (o que a época soava como grave defeito), maquiado pela mídia como um governante fraco, foi enxotado do poder. A suposta fraqueza foi comprovada quando não quis resistir ao golpe arquitetado pela direita civil reacionária e consolidado pela maioria dos militares da época. Hoje é sabido que sua opção por não resistir, é na realidade a maior demonstração de grandeza de um estadista: evitar o derramamento de sangue de seu povo. Infelizmente isto aconteceu depois na “consolidação” do governo revolucionário, que transformou-se numa das mais cruéis ditaduras da história. Jango enxotado também do país só retornaria ao Brasil para seus próprios funerais. Foi o único líder político expressivo do país a morrer no exterior. Repressão, tortura, censura e desaparecimentos calaram vozes e deixaram a nação inerte, a deriva. Passados 50 anos, muitas comissões da verdade depois, ainda convivemos com vários dos ranços da ditadura civil-militar. A velha ARENA, por exemplo, produziu filhotes que hoje se travestem de progressistas, liberais, democratas e até socialistas e cristãos, apostando na absoluta falta de memória histórica da sociedade brasileira. Em nome de vitórias eleitorais a qualquer custo, formalizam-se alianças tão absurdas quanto inimagináveis, unindo lobos e cordeiros a ponto de não se saber que história estamos vivendo e vamos contar. Mas é preciso manter viva a memória desta tragédia para que as gerações futuras não se tornem vítimas de qualquer movimento que se pareça com ela. Encerando estas singelas palavras de tributo à Jango e à tantas vítimas, vale lembrar estas palavras pronunciadas por Jango no comício de 13 de março de 1964, na Central do Brasil, Rio de Janeiro: “O nosso lema, trabalhadores do Brasil, é ‘progresso com justiça, e desenvolvimento com igualdade’”. Passados 50 anos o lema tornou-se utopia, o sonho divaga no mais profundo sono, do gingante que por algumas vezes pareceu que poderia recuperar sua consciência. Este lema (sonho, utopia) foi o motivo da condenação de Jango e do país!

terça-feira, 11 de março de 2014

Testando limites

O ano de 2014 promete! Será um ano para todos testarmos nossos próprios limites. Limites de indignação, tolerância e esperança. Será um ano decisivo em vários aspectos. Por ser um ano eleitoral e sediarmos a copa do mundo já se somam alguns limites a testar. Há uma nítida sensação de tensão, vivida, segundo quem viveu e testemunhou, apenas nos tempos de ditadura. Um clima de tensão gerado por uma constante inversão de valores somente comparável àquele tempo de horror. Senão vejamos! Denúncias elevam suspeitas de que os violentos black bloks, bandidos infiltrados nos movimentos em favor da preservação da dignidade cidadã, seriam financiados para desacreditar a legitimidade destes movimentos. Algo que se assemelha a infiltração de espiões nos grupos de resistência ao regime de exceção. Políticos condenados e presos deixam a todos estarrecidos, não somente pelo inédito fato de sua prisão, mas pela intensa capacidade de angariar fundos por meio de “vaquinhas” eletrônicas para pagar suas contas com a justiça. E pior, quando um magistrado questiona a transparência destas arrecadações é inquirido a justificar sua legítima função de guardião da justiça. A cada dia é preciso dar maior razão a Rui Barbosa, quando este dizia que “de tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”. O processo eleitoral que se avizinha promete debates em torno do velho discurso quase irreciclável de governo e oposição. Não há efetivamente nada de excepcionalmente novo. Políticos aventureiros, estratégias mofadas, o que não alimenta muitas esperanças. Se em junho e julho de 2013 o povo foi às ruas pedir o novo, não se vê ninguém capaz de dar uma resposta. O que se ouve, são discursos de pessoas que parecem viver noutro mundo. Não percebem mas, estão testando até mesmo o esgotamento dos limites da mediocridade que impera no universo político. Se deixamos de ser um país pacífico e tolerante é por que nos faltam grandes líderes e grandes projetos de nação. Não querem manifestações durante a copa, não por preocupação em relação às demandas legitimas da população, mas para “não fazer feio” aos olhos do mundo. Enquanto isso percebe-se uma grande maioria dominada à moda do “pão e circo”. O pão são as migalhas distribuídas em programas que deveriam ser emergenciais e se transformam em única fonte de renda para toda a vida de milhares de famílias. Os milhões de brasileiros sustentados pelo chamado “maior programa de distribuição de renda” do mundo formam uma legião de dependentes. As conseqüências disto, a médio e longo prazo, costumam ser desastrosas. O programa de fato é espetacular e seria reconhecido como sério se as pessoas atendidas fossem preparadas com o tempo, a gerar sua própria renda. O circo está garantido pela copa do mundo e olimpíadas, verdadeiros ralos de dinheiro público. Mesmo que não haja desvios de recursos públicos (o que se espera num estado democrático de direito) a relação custo-benefício não parece muito satisfatória. Assim, enquanto for preciso pedir licença para defender o que é nosso, enquanto o algoz vestir o figurino da vítima, pode-se dizer que se vive numa meia democracia. Trata-se de um teste até mesmo para nossa esperança! *Publicado no Jornal do Médio Vale de 11/03/2014

Reze por mim!

Texto em homenagem ao primeiro ano de Pontificado do Papa Francisco Desde que o cardeal Jorge M. Bergóglio, assumiu sua missão pontifícia, inúmeras vezes fez este pedido. O fez a todos os homens e mulheres de boa vontade. Não se trata de um pedido simples tanto quanto possa parecer. Não é apenas sobre sua pessoa, mas sobre sua autoridade e sobre suas decisões. Passado um ano o reconhecimento mundial à figura do Papa Francisco, não se dá por outra coisa senão pela humildade e humanidade com que conduz sua rotina. Tem sido acusado de demagogo ou por repetir um discurso que não é novo. Realmente não é um discurso novo. Pregar a paz, o encontro e a alegria do Evangelho não se constitui numa grande novidade. Pregações deste tipo realmente soam como demagógicas, aos ouvidos de quem nunca se imaginou praticando-as. Mas o discurso de Francisco não é demagógico e tampouco repetitivo, por que como poucas vezes se viu, vê-se um líder traçar seu discurso assentado em sua prática. Recusou privilégios, propôs e se fez instrumento de mudanças estruturais na Igreja, varrendo a escada de cima para baixo. Pede que o clero tenha o cheiro das ovelhas, que as pessoas escancarem seu coração ao diálogo, à tolerância e à alegria do Evangelho. Insiste por uma Igreja viva, ativa e corajosa. Quando se apresentou diante da multidão e pediu para que o povo abençoe seu bispo, fez um convite à caminhar juntos. Um exemplo a ser seguido por clérigos, leigos, pais, mães e filhos. O mundo atual, carente de líderes que guiam mais pelo exemplo e menos pelo discurso, conhece Bergóglio num momento em que experimenta uma verdadeira hecatombe, não mais nuclear, mas ambiental e ética. Assim seu discurso simples, jamais simplório, suas palavras doces, mas fortes, seu sorriso cativante e verdadeiro, o tornam uma grande novidade, por reestabelecer valores que não conhecem o desgaste daquilo que é artificial. Francisco passa a exercer seu papel como protagonista da história mundial e não apenas da Igreja. Como líder é alvo de críticas, certamente erra, mas exerce o papel que se espera de quem é chamado a ser autor da história. Seu insistente pedido de oração é também um convite para que todos caminhemos juntos. O mundo experimentado pelas guerras, violações de direitos, corrupção é também o lugar onde é possível e necessário construir esperança. Esta oração é antes de tudo uma sintonia, uma afinação, um acerto de passos que poderá iniciar uma grande revolução. Uma revolução capaz de sensibilizar os sentimentos mais nobres e ao mesmo tempo simples, de tornar o mundo mais possível de se habitar. Independentemente de religião, as reflexões de Francisco, não destoam das sinceras manifestações de outros líderes que ao longo da história apelaram para ao ser humano e para a sua forma de existir no mundo. Não é mais uma questão de religião, mas de sobrevivência. *Publicado no jornal do Médio Vale em 07/03/2014.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Escola Pau-de-Arara

Toda nação, sociedade, família e pessoa é constantemente chamada a fazer opções. Assim tudo o que temos e o que somos é fruto da decisão tomada num determinado momento por alguém ou grupo. Assim houve países que optaram por serem campeões em ciência, outros em tecnologia, outros em cultura, outros em infra-estrutura, outros em futebol. Conforme a opção planejou-se a inserção do Estado na dinâmica da referida sociedade, das famílias e da vida das pessoas. Os que optaram pela ciência, tecnologia e cultura, construíram escolas, formaram bons professores, apostaram em cérebros. Os que optaram pelo futebol construíram monumentais estádios e tornaram-se exportadores de jogadores de futebol. O Brasil optou por este caminho! Não que o futebol deva ser culpado por isso, ao contrário, trata-se de um esporte capaz de promover saúde, gerar riqueza e acessível a todos. Os que optaram pela ciência, tecnologia e cultura também possuem grandes estádios e excelentes jogadores. A diferença é que o futebol surgiu como consequência. Países arrasados por guerras e grandes catástrofes, em poucas décadas tornaram-se exportadores de tecnologias e conhecimentos. O Brasil tornou-se exportador de minério e soja e um grande importador de chips. Um dos motivos disto é que ainda vivemos num país em que apresentamos às nossas crianças, uma “Escola Pau-de-Arara”. Esta expressão é do professor Cristovam Buarque, citada no seminário “Caminhos para a inovação 2013: a ciência no futuro da saúde e dos esportes”. A escola pública brasileira em nível básico, salvo algumas exceções, é um espaço de improvisos, de sobras e experimentos teóricos e políticos inconseqüentes. Assim como o caminhão pau-de-arara, é desconfortável, superlotada, pouco segura e dirigida com pouca habilidade e preocupação em relação aos seus ocupantes. Feita esta constatação, que não constitui numa grande novidade, caminhemos para a solução, para que deixemos de ser apenas o país do futebol, mas também da ciência, da tecnologia, da cultura e da infra-estrutura. Também não constitui novidade dizer que este caminho passa (ou se inicia) por uma educação de base semelhante a uma moderna composição metroviária, com estações confortáveis, vagões seguros, com horários precisos, itinerários bem planejados e manutenção diária. Mas que escola é essa? Que soluções pode-se apresentar? Não são necessariamente novidades do ponto de vista teórico, mas algo ainda quase inatingível à nossa realidade. A primeira delas, como grande fundamento é a gestão profissional e democrática. O gestor de escola necessita ser qualificado técnica e eticamente para ser capaz de otimizar recursos, tempo e mentes. O aspecto democrático funde-se com o profissional quando o gestor fundamenta sua ação em ouvir sua comunidade local e atentar para a evolução histórica vivida pelo mundo contemporâneo. Outro aspecto é a oferta de salários melhores aos profissionais da educação, para atrair os melhores cérebros para o magistério. Poucos são os jovens que desejam efetivamente ser educadores. A exemplo do aspecto da gestão, o salarial, depende de uma opção política. Uma opção pelo futuro, pelas próximas gerações e não apenas pelas próximas eleições. Aliado a isso há também um aspecto pessoal do ser humano que deseja ser educador: gostar de gente. Não há como pensar numa escola acolhedora, segura e atraente dirigida e constituída por gestores e educadores que não apreciem a beleza de ser gente. Por fim, porém não menos importante, há os aspectos estrutural e metodológico. Não há como atender seres humanos em espaços improvisados e financiados por sobras. Tecnologias são instrumentos auxiliares fundamentais para que seja possível fomentar o pensar no contexto escolar. O pensar é fundamento para que o ciclo evolutivo da tecnologia, da ciência e da cultura seja uma dinâmica constante. Para isso apontamos uma solução totalmente brasileira: uma educação dialética e problematizadora, fundada no pensamento de Paulo Freire. Uma nova pedagogia, onde crianças e jovens, que são essencialmente curiosos, sejam estimulados a ampliar sua curiosidade. Que aprendam a duvidar sempre, perguntar sobre tudo, transcender conceitos. 2014 pode ser o ano em que finalmente poderemos abandonar o “Pau-de-Arara”, afinal sabemos que há uma condução mais confortável e possível. A opção e a oportunidade de escolha são nossas. O primeiro passo pode ser dado nas ruas: o da indignação. O segundo nas urnas: o da ética.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Assistencialismo e Justiça Social

A consolidação de política de empobrecimento da uma esmagadora maioria em detrimento enriquecimento de uma minoria produziu ao longo da história uma legião de miseráveis e excluídos suscetíveis a toda sorte de tragédia. Seres humanos subumanizados, alijados de dignidade e mutilados em sua cidadania. Sorrateiramente preparados à sobreviver de migalhas, as quais lhe são servidas como verdadeiro banquete de compaixão e misericórdia por parte de quem se compadece de tal situação. É o algoz vestindo a pele de cordeiro! No Brasil, por vários séculos esta prática consolidou-se como fluxo natural do processo civilizatório, marca inconteste no caminho normal onde o conformismo do miserável só não é maior que o apetite sistemático do grande capitalista (coronel-senhor). Mas como nada é imutável, enfim experimentou-se a prática reversa. A visão do miserável que até então banqueteou-se com as migalhas, mas não se vê na obrigação da dívida de gratidão. Porém o vício do poder parece potencialmente virulento, contaminando a quem o combateu por séculos. Se antes o conformismo estava em aceitar a condição de miserabilidade e submeter-se, agora é tempo de considerar que o Estado deve oferecer algumas migalhas em forma de política afirmativa. Quem recebe por sua vez imobiliza-se diante da generosidade do poder instituído e submete-se a ele. Esta submissão se dá pela imobilização democrática das massas que retribui as migalhas com votos. Graças ao assistencialismo deliberado contentam-se os famintos e laureiam-se os “generosos” e ainda afagam-se os poderosos com generosas benesses. O que era para ser um programa emergencial e com perspectivas de constante redução, torna-se o grande diferencial de um governo que se apresenta como revolucionário. A educação básica padece, priorizando-se a superior onde há mais votos. Para ingressar na superior criam-se políticas afirmativas pois a escola básica não é igual para todos. Ao invés de federalizar a educação básica, federaliza-se o assistencialismo “despretensioso”. Assim constata-se que estamos subordinados a um regime de empobrecimento econômico e moral por séculos e que nos conduz à uma realidade sempre mais insustentável. Assim, somando o cruel abandono de séculos e o assistencialismo castrador atual, nos afastamos a cada dia de um país capaz de estabelecer uma justiça social onde cada cidadão possa se sustentar com dignidade e usufruir plenamente de seus direitos. No país do futebol, do analfabeto, das músicas de dois versos, do político condenado (e até preso) fazendo leis, descortina-se um futuro de poucas esperanças. Esperanças depositadas numa grande revolução possível. Uma revolução que nasceu nas ruas, mas que a mídia insiste em reduzir a vandalismo. Uma revolução sem partidos políticos (de nossos moldes) mas repleta de ideologia e de expectativa por justiça social. O manifestante sério (que é a esmagadora maioria) quer trabalhar em paz, capacitar-se para ler e compreender a realidade, sentir-se seguro, alimentar-se dignamente, poder ser o que de fato é. Isto é justiça social. Justiça social que se alicerça, ao nosso ver em três pilares fundamentais: educação emancipadora, distribuição de renda e sustentabilidade. A educação emancipadora a que nos referimos, é fundamentalmente a que promove o ser humano e lhe permite construir-se permanentemente. Uma educação que rompa o estado de submissão absoluta e a condição subserviente da massa e a transforme efetivamente em um contingente cidadão. Uma educação para o futuro. A distribuição de renda não é necessariamente um programa de doação de recurso do Estado para o cidadão, o que é uma política afirmativa fundamental numa nação de famintos e doentes. Distribuição de renda é garantir a todos a oportunidade de produzir e gerar riqueza a qual seja distribuída de forma equânime e solidária para que todos tenham garantidos os direitos fundamentais. Neste mesma perspectiva carecemos de relações humanas, sociais e ecológicas sustentáveis. Trata-se de estabelecer a tolerância, o respeito, o equilíbrio e condutas éticas que permita à vida, manifestar-se de forma livre e ampla. A diferença entre seres humanos é um fenômeno não apenas a ser tolerado, mas celebrado. Cada sujeito embora único e particular é também indivíduo de um coletivo e nele insere seus valores, habilidades e necessidades. No âmbito das relações do ser humano com o meio ambiente, a preocupação é com o esgotamento do planeta em garantir o desenvolvimento pleno da vida. Assim, justiça social não é apenas uma questão de sobrevivência coletiva, mas de dignidade. Se a justiça social é um sonho, então é preciso acreditar que ele é possível. Afinal não há como ter esperança em algo em que não se acredita. É também fundamental que não se deixe podar o sonho preservando-se o direito de sonhar sempre. Cada cidadão necessita sentir-se no direito de sonhar e nenhum governo assistencialista, direitista ou reacionário tem o direito de tolher o sonho! Uma sociedade de homens e mulheres que sonham será socialmente mais justa!

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O Francisco em cada um de nós!

A passagem do Papa Francisco pelo Brasil, emocionou, comoveu e fez surgir inúmeras reflexões sobre os mais variados temas: igreja, futuro, humanidade, religião, costumes, fé... Jorge Mário Bergóglio descobriu o Francisco que estava dentro de si, que o fez viver no anonimato (em relação a maioria de nós). Certamente ao espelhar-se em Francisco de Assis, ao longo de sua vida, não imaginou um dia legar seu nome. Mas antes de usar seu nome, seguiu o exemplo, a forma de viver. Assim Jorge agora é Francisco. Antes de discutir temas longínquos é fundamental discutir-se. Afinal caberá um Francisco (de Assis) em de cada um de nós? Ainda há espaço para a humildade, a empatia, a caridade entre tantos valores a que somos expostos? Ser solidário, ser gente, ainda está em moda? Bergóglio nos disse que sim, nos desafiou a dizer que sim. Francisco de Assis transcendeu os séculos, tendências, sistemas econômicos, mídias e está aí, servindo de exemplo a um homem que cativou e ainda cativará mais. Francisco de Assis mudará o mundo? Certamente não, se o mundo não se permitir mudar. Mas se três milhões e meio de pessoas seguiram a um chamado, não há dúvidas de que algo acontece. Ao contrário do que se possa imaginar ou prever o mundo caminha para o incerto (e sempre caminhou), porém o exemplo que arrasta pode consolidar algumas atitudes. Solidariedade, cooperação, empatia, humildade, caridade parecem demandas emergente à uma geração que se vê distante de si própria. Redes sociais virtuais parecem não satisfazer a necessidade do humano que cala em cada um. Ser Francisco, não depende de religião. Há muitos Franciscos anônimos, evengélicos, pentecostais, não cristãos e ateus. O despertar do Francisco que está em cada ser humano é algo único. Pode acontecer a qualquer momento. Ter a coragem de sentir incompleto(a) é uma excelente forma de deixar brotar o Francisco que habita em cada ser humano.

domingo, 11 de novembro de 2012

Desenvolvimento econômico insustentável: um modelo brasileiro

Em tempos em que o termo sustentabilidade é considerado fundamental para toda e qualquer atividade humano, cumpre analisar as razões que tornam tão difícil a sua aplicabilidade. Inicialmente parte-se do princípio de que a sustentabilidade seja possível, o que já é questionado por importantes pensadores modernos. Na hipótese de sê-lo há que se considerar diferentes aspectos históricos, culturais e políticos que conduziram-nos a um modelo definitivamente insustentável. O Brasil, até meados do século XX era um país essencialmente agrícola, exportador de commodities e pouco expressivo na produção de manufaturados ou industrializados. Inicia-se então o processo de industrialização especialmente através da indústria automobilística. Alguns equívocos podem ser percebidos de imediato: as grandes montadoras são estrangeiras; a tecnologia e o conhecimento aplicados são estrangeiros; o público brasileiro não estava preparado para consumir o produto (veículos); não se preparou o país para suportar a inserção de milhares de veículos anualmente em sua malha viária; a produção demanda um grande contingente de recursos naturais. Assim explorou-se exaustivamente a mão de obra barata, os recursos naturais abundantes sem que houvesse uma preocupação efetiva com o impacto de tudo isso na realidade econômica e ecológica brasileira. Para que parte da sustentabilidade seja alcançada procurou-se popularizar o automóvel facilitando sua aquisição, seja pelo valor ou por linhas de crédito; transformá-lo em motivo de status e não apenas considerá-lo como um meio de locomoção. Entretanto não se dispensou preocupação efetiva em relação a estrutura viária e hoje vemos cidades transformadas em grandes estacionamentos e pessoas tomadas por dívidas e com um bem em constante desvalorização. Sem falar no grande dano ambiental gerado pela sua produção e pela sua utilização. Os outros setores da indústria percorreram caminhos semelhantes porém não tão impactantes. Pensar em sustentabilidade de um modelo concebido neste formado permite compreender a dimensão utópica que este conceito abrange. Hoje pagamos pela despreocupação do passado, uma vez que uma das grandes preocupações atuais é a mobilidade urbana. É preciso reconhecer também a incapacidade preventiva do Estado que não desenvolveu estratégias eficientes de transporte coletivo utilizando os diversos modais disponíveis. Conclui-se que incompetência e insustentabilidade são conceitos complementares e efetivamente assimilados pelo Estado brasileiro. Parece que há uma vocação por corrigir em detrimento de prevenir. O caos ecológico e econômico gerado por atitudes impensadas reflete concretamente na qualidade de vida das pessoas. Perdem-se horas em rodovias transformadas em estacionamentos, respira-se mal e gasta-se parte do trabalho para pagar a conta. Definitivamente estamos na contramão de qualquer tentativa de sustentabilidade. Precisa-se de um Estado competente que pense nas futuras gerações e não de políticos que planejem apenas as próximas eleições; de cidadãos que se percebam mais do que potenciais consumidores, mas autores de uma história mais sustentável mais digna e com reais perspectivas de futuro.

sábado, 7 de julho de 2012

A (auto)mediocrização do professor

É comum, ao sabor do senso comum, ouvir afirmações de que a profissão professor está em extinção devido às tecnologias, novas mídias ou novas concepções de aprendizagem. Efetivamente a existência destas “novidades” é algo real e conquistou um espaço significativo na vida de crianças e adolescentes que certamente vêem na figura caricata do professor “dono do saber”, um instrumento ultrapassado, uma verdadeira sucata humana. Para sorte da garotada este perfil de professor está em extinção de fato, não pelas “novidades” mas pelo fato de que os novos educadores estão fomentando um novo paradigma de “ser professor”. Se antes o professor era responsável pela disseminação do saber sistematizado, aos poucos assumiu o papel de coadjuvante como mediador entre o saber e seus alunos. Esta mediocrização, muitas vezes aceita pelos professores, deixou-os numa posição aparentemente cômoda, porém estrategicamente arquitetada para sucatear a profissão professor. Aos acomodados e conformados certamente caberá a triste despedida pela porta dos fundos daquilo que um dia foi sua profissão. Entretanto cumpre dizer novas perspectivas fundam um novo “ser professor”. Um professor inconformado, protagonista da sua ação pedagógica, participante ativo da vida de seus alunos, exercendo sua profissão de forma a fazer a diferença em relação ao contexto em que se situam. Neste novo paradigma profissional surge o “ser educador”, sujeito capaz de valer-se de crises e conflitos para romper com a estagnação de seu papel mediador. Este novo ator assume-se como sujeito político pois optou pela ação, pela crítica e por sua inserção pessoal no processo educativo. O educador emergente neste novo paradigma não será o amo que fará pela família o que lhe cabe, mas um personagem fundamental que se ocupará da tarefa de inconformar cada geração em relação ao que a história lhe propõe. Caberá ao educador transmitir saberes e principalmente propor caminhos para utilizá-los de forma adequada e especialmente buscar mais. Neste sentido, tecnologias, mídias e novas metodologias podem auxiliar em sua tarefa, porém o “ser educador” é algo a ser construído através do comprometimento do professor consigo e com seus alunos. Extinguir o medíocre é próprio da história em qualquer profissão ou função em diferentes sociedades ou organizações, e no magistério não poderia ser diferente. O padecer de alguns, entretanto não permite a ninguém generalizar, exceto aos próprios padecentes que consideram o trabalho de seus colegas cópias de seu próprio fracasso. Mas com a extinção deste grupo, decretada pela sua própria conduta abre espaço para a inovação. Os medíocres cedem seu espaço aos que acreditam que “ser educador” não é uma missão ou uma vocação, mas uma atitude genuinamente profissional, de respeito a si e aos educandos.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Avaliação nota dez para reprovação zero

A cada ano as políticas públicas em educação tendem para o que se pode chamar de reprovação zero. Há quem diga que isto acontece para que o poder público possa alcançar índices numéricos positivos para mascarar certas deficiências, enganando-se e enganando a toda a sociedade com aprovações não necessariamente vinculadas ao sucesso do processo educativo. Efetivamente são opiniões válidas e que num ambiente democrático podem e devem ser respeitadas, porém passivas de discussões e crítica. O que mais encaminha à crítica é a forma como a reprovação é produzida: um sistema de ensino metodologicamente arcaico e uma avaliação unidirecional e punitiva. Ao se considerar o que ocorre na maioria das escolas públicas, com honradas exceções, percebe-se uma tendência e induzir às pessoas (educadores, gestores e educandos) a acreditarem que o conhecimento só existe e é possível passando pela escola. Sendo assim, a forma como esta o apresenta é a única aceita e, portanto avaliada positivamente. Eis umas das fontes da reprovação, quando o educando não se adapta ao “sistema”. Este passa a personificar algo quase místico, pois poucos lembram-se que o “sistema” é produzido e sustentado por pessoas (gestores, educadores). O processo educativo sistematizado nestes moldes não se percebe da mudança permanente em que os seres humanos e o conhecimento estão inseridos. Não se percebe de que é preciso “preparar” as pessoas para o contato com o conhecimento. Prepará-las para que saibam compreender a intencionalidade e a imparcialidade de cada novo conceito e suas conseqüências para a vida como um todo. Prepará-los para que saibam responder perguntas, resolver problemas e a questionar de forma crítica, os conceitos postos, visto que a ciência é por excelência um exercício de crítica e curiosidade. Vale dizer entretanto que os conhecimentos arcaicos são sumamente significativos se considerarmos a historicidade da ciência e do conhecimento, pois impulsionaram novas perguntas, problematizações e novos saberes. O arcaísmo condenável é a imitação engessada e insana de valores superados que conduzem a uma cultura escolar do desprazer, do sacrifício e do autoritarismo. A avaliação implícita neste contexto pressupõe uma certa arrogância da escola sobre os educandos, considerando-se detentora de um saber imprescindível o qual deve ser assimilada compulsivamente. Partindo disto surge o caráter unidirecional e punitivo da avaliação, especialmente aos que compreendem a escola como não sendo a depositária exclusiva dos saberes necessários ao futuro das pessoas. Aos que questionam ou discordam resta a ameaça da retenção (reprovação), por parte de quem pretende conservar um pseudo-poder sobre os educandos. O arcaísmo escolar deseja sustentar este poder, negando outras fontes de saberes e principalmente as novas demandas do processo educativo, que se fundamentam na necessidade de incitar a curiosidade, a criticidade e a potencialidade reflexiva de cada sujeito. Obviamente que para tanto é fundamental que cada educador se sinta suficientemente disponível à mudança e à constante transformação e construa sua autoridade pela confiança e pela potencialidade transformadora de seu trabalho na vida dos educandos. Quando este trabalho estiver ameaçado por questões disciplinares ou até de violência é preciso recorrer a outros instrumentos legais e institucionais. O primeiro passo nestes casos é exigir da família a sua participação no processo, que é intransferível no que diz respeito a construção de certos valores como respeito, ética e solidariedade. Esta distorção transcende inclusive às funções da própria instituição escolar a qual não responde por atitudes punitivas em relação a questões de caráter por exemplo. Impor respeito pelo “poder do medo” transforma a instituição escolar num espaço desprovido de atrativos e os educadores em caricaturas de um processo ultrapassado e sem sentido. Assim avaliar será um ato diagnóstico, revisor e crítico de um processo no qual está implicitamente inserida. Cabe-lhe a função de apresentar a compreensão de tal processo (o educativo) e estabelecer caminhos pelos quais será possível à instituição escola cumprir a sua. A mera solução pela retenção (reprovação) revela neste contexto, um fracasso evidente de diferentes atores do processo educativo: escola, família e poder público. Assim faz-se necessária uma inovação de posturas por parte da escola, novas condutas familiares e a promoção de novas políticas públicas educacionais por parte dos gestores públicos.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Em busca de uma elite intelectual na escola pública

Ao se discutir a problemática inerente à educação são comuns debates em torno da falta de recursos, de bons salários e de políticas públicas adequadas às demandas emergentes do contexto deste terceiro milênio. Estas são reivindicações legítimas e que devem pautar continuamente as reflexões relativas à educação. Entretanto elas não são suficientes e dificilmente haveremos de promover a grande revolução necessária para que a educação seja efetivamente concretizada no âmbito da educação pública. A grande razão de existir da escola, inclusive e especialmente, pública é promover a inserção de todos, por meio de oportunidades iguais, ao universo do saber. Assim as temáticas dos debates atuais torna-se relevante e impactante na medida em que houver também a preocupação em se formar uma elite intelectual na escola pública. O conceito de elite a que nos referimos não sugere a existência de uma “casta” intocável e arrogante que encarne a supremacia repressiva e opressora sobre uma grande “massa” rasa e incapaz de acender humana, intelectual e socialmente. Entenda-se elite, com um conjunto de pessoas que se postem com humildade e respeito diante de quem está “nascendo” para o mundo através do saber, oportunizando-lhe condições, desafios e espaços para elitizar-se de forma a libertar-se do estado de ignorância e desconhecimento. Esta elite intelectual são os educadores, que além de conhecimentos e conceitos, detém a sensibilidade dos inconformados, a coragem dos desafiadores, a ternura dos solidários e a perseverança dos esperançosos. A elite que se torna necessária na escola pública é a que desafia os educandos a se superarem, que exige deles comprometimento, carisma e humildade. Uma elite ética que não sentencie os ignorantes ao fracasso, apresentando-lhe um mundo ideal, sem competições, obstáculos ou dificuldades, propondo-lhes uma postura passiva diante da agressividade a que o contexto social os submete. A ética da elite intelectual da escola pública propõe que os educadores apresentem aos educandos os mecanismos necessários para garantir o respeito a sua dignidade e a sua diversidade. Desta forma investimentos, novas metodologias, projetos emergenciais e certas tentativas de mascarar uma realidade de miséria intelectual na escola pública, resultam apenas em índices e dados estatísticos que refletem uma realidade ideal. Entretanto, a real é absurdamente vergonhosa com adolescentes incapazes de escrever e interpretar um texto e educadores incapazes de libertar-se dos velhos manuais e cartilhas. Embora existem inúmeras e honrosas exceções será que nos educadores teríamos coragem de dizer aos nossos alunos quantos livros lemos num ano? Teríamos coragem exigir deles alguma leitura? Se estas simples perguntas comprometem muitos de nossos colegas, ousaríamos nos intitular “elite intelectual”? Mas há que se dizer que como é de costume do ser humano agir por imitação e como temos muitos educandos de excelente nível intelectual é porque uma parcela de educadores já caminha para uma elitização. No lastro destes, outros virão e a perseverança dos esperançosos permite sonhar com a formação de uma grande elite intelectual na escola pública. Como sonhar é o primeiro dos passos da longa caminhada, espera-se que os outros (mais recursos, bons salários e políticas públicas adequadas) sejam garantidos a quem é de dever. Espera-se também o comprometimento das famílias, afinal a ela também cabem deveres intransferíveis e irrevogáveis.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Escola tradicional e equívocos pós-modernos

A palavra tradição, de acordo com sua aplicação, pode suscitar variadas interpretações podendo gerar preconceitos e compreensões distorcidas. Quanto se aplica à questões culturais pode ser vista como algo positiva, como uma forma de preservar valores, costumes e práticas históricas . Entretanto, em educação, a tradição é vista com restrições. Normalmente está associada a práticas arcaicas, excludentes e pouco atrativas. Mas afinal qual a verdadeira face da tradição e do tradicional no contexto escolar? Esta certamente não é uma resposta simples ou que possa ser aplicada a qualquer instituição escolar. O que se pode perceber é que determinadas tendências foram incorporadas ao conceito de escola tradicional, como é o caso do tecnicismo e não se promoveu grandes discussões em torno de sua complexidade. Graças a teorias emergentes partiu-se para o que muitos chamam de pós-moderno e estabeleceu-se uma série de paradigmas: conteúdos não são mais fundamentais; conceitos devem ser discutidos, selecionados e construídos de acordo com o interesse do aluno; o educador aprende com seus alunos; a família pode e deve partilhar do processo pedagógico. Tudo isto obviamente não é ruim, ao contrário, representa um salto qualitativo de grande relevância e impacto. O grande equívoco foram os extremismos. Assim, para muitos educadores, gestores e instituições, os conteúdos e principalmente os conceitos foram simplesmente ignorados com o pretexto de que em qualquer mídia, por exemplo, é possível encontrá-los. De fato, as mídias disseminam informações e dados, que por sua vez são apresentados de forma parcial e frequentemente controlados. Em relação aos conceitos, estes devem realmente ser amplamente discutidos, porém de forma competente e comprometida. São os educadores os profissionais adequados e preparados para coordenar esta discussão, incorporando-se a ela e não servindo apenas de mediador. Ao educando é preciso garantir o espaço de manifestar seus interesses e necessidades para que o processo educativo seja visto como de efetiva significância para a sua vida. Porém algo merece atenção especial neste momento: a participação da família no processo educativo. Como diz a constituição federal, a educação é um dever do Estado e da Família, portanto, sua participação é indispensável e insubstituível, visto que é nela que o sujeito passa a relacionar-se com o mundo. Não há avanço moderno ou pós-moderno que poderá suprimir a função familiar no processo de formação das pessoas. Assim, discursos e teorias que tratam da necessidade de superar concepções tradicionais por outras pós-modernas, é preciso ter o cuidado para não comprometer valores que possam garantir o sucesso de todo um processo. Educar é também servir-se de valores e princípios, tradicionais ou não, que imponham segurança e significação ao que se está propondo. Assim tradição e inovação podem e devem caminhar juntas também no processo educativo, tornando-o dinâmico e sempre mais vivo.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Pelo respeito a desigualdade na escola pública

A desigualdade é sempre um sério problema no contexto humano e social e algo absolutamente condenável do ponto de vista ético. Todos devem ter garantido o acesso aos mesmos direitos numa sociedade que queira ser justa. Se houver um privilégio e, por conseguinte, privilegiado ela deixará de ser justa e ética. Porém há igualdades que são tão cruéis e anti-éticas quanto o seu oposto. Imaginar que todos os seres humanos aprendem da mesma forma ou que queiram aprender a mesma coisa é algo brutal e desumano e tem condenado vidas à ignorância e a exclusão. Se num aspecto é preciso garantir igualdade de oportunidades por outro é preciso garantir a diversidade de caminhos e valores. Diferenças econômicas, étnicas, religiosas, por exemplo não podem justificar a exclusão de ninguém de qualquer processo educativo, porém a liberdade de pensamento, valores individuais e habilidades não podem ser tolhidos em nome da dita igualdade. Assim a escola, especialmente a pública, tem sido um espaço em que os desiguais se apresentam de forma mais evidente e menos velada. Nela estão crianças e adolescentes provenientes dos mais variados universos, com perspectivas, esperanças, frustrações, sonhos, traumas e expectativas. Não há como imaginar enquadrar a todos num padrão pedagógico ou numa postura educacional determinada por decretos, por exemplo. Há na escola pública um grande desafio e um grande valor. O desafio de garantir o respeito a esta desigualdade e a diversidade como valor. Se as diferenças entre as pessoas que nela se encontram forem vistas como um caminho para compreender que cada ser humano precisa construir seu caminho e sua história a partir de sua experiência planetária, então será possível fazer da educação um campo de construção e respeito às diferenças. Assim, diariamente observamos relatos de educadores surpreendidos por uma criança ou adolescente que realizou algo inesperado. Justamente por que estabeleceu-se um “limite esperado” como se não fosse possível transcender. Eis um alerta necessário: os educadores, que são os grandes fomentadores da discussão dos conceitos científicos historicamente elaborados, deveriam saber que a ciência se constrói a partir do inesperado. Afinal se tudo o que fazemos devesse obedecer regras “esperadas” estaríamos a milênios, repetindo os mesmos conceitos e os mesmos erros. Neste sentido é preciso ponderar que os próprios educadores provém de um sistema de formação que lhes impôs a igualdade (padrão) como regra para o sucesso. Esta ruptura pessoal e depois profissional é um verdadeiro parto em que o invólucro de certezas se rompe e o sujeito é surpreendido por fenômenos nunca experimentados. Para o educador que se vê como infalível, auto-suficiente e por isso arrogante, a sensibilização para uma revisão de posturas, a procura por novos saberes e o respeito ao pensamento divergente são exercícios extremamente sacrificantes. Não se trata de aprender conceitos científicos com seus alunos, mas de aprender a compreender a diferença, a diversidade e a capacidade que cada criança e adolescente tem de se fazer parte do mundo. Quanto ao domínio do saber cientifico, este é uma prerrogativa para que o educador possa se fazer perceber como profissional. Portanto, promover a desigualdade neste sentido, significa manter viva a esperança de que ainda temos muito a construir, a descobrir e a inventar. Tirar essa possibilidade é condenar os seres humanos a nulidade, excluí-los da vida. É negar a capacidade de (trans)formação que a história testemunhou em milhares de anos. Publicada na edição de 11 de abril de 2012, do Jornal do Médio Vale (p. 17)

domingo, 11 de março de 2012

As cicatrizes da Revolução: de Jango à comissão da Verdade

Um dos deveres intransferíveis da educação é formar a consciência (capacidade crítico-reflexiva) e a sensibilidade (capacidade de intervir) da população em relação a sua própria memória. Assim um dos episódios mais cruéis da história contemporânea do Brasil, a Revolução de 1964, que é descrito como passo natural para a nação,dadas as condições da época precisa ser recontado. Segundo as versões didáticas, vivia-se num tempo de instabilidade, de um governo fragilizado, comandado por um presidente fraco, com tendências comunistas e de competência duvidosa, o que justifica o uso da força e da repressão para restabelecer a ordem. Além disso, passados 47 anos da Revolução de 1964, que na realidade se caracterizou por um golpe de Estado na mais crua acepção do termo, o Brasil ainda discute se deve ou não revelar a verdade sobre o que aconteceu em 21 anos de Regime. A criação da chamada comissão da verdade tem gerado discussões polêmicas em torno dos seus propósitos e resultados. O fato é que após décadas do fim do Regime, há ainda dúvidas, dores e cicatrizes que não permitem esquecer um dos períodos mais tristes e traumáticos da história recente do Brasil. O que se percebe é que além da crueldade dos fatos há também a da forma como estes foram descritos. Personagens são lançados ao esquecimento ou ainda são descritos de forma absurdamente destorcida, beirando ao crime. Um destes personagens é o então presidente João Belchior Marque Goulart (Jango), visto como um político fraco, submisso e até incapaz por alguns autores, que inclusive o responsabilizam pelo ocorrido e por suas conseqüências. O desrespeito à sua memória o transformou em personagem condenado a marginalidade histórica expondo-o a ridicularização por ter sido um pacifista e legalista. Se a nação ainda chora o sangue derramado e o horror vivido pelas vítimas da “revolução”, deve-se a Jango, a capacidade e a coragem de renunciar às próprias glórias, em nome da preservação da vida de milhares de brasileiros. Poderia, segundo a história, ele próprio ter lutado e deflagrado um golpe e sujeitado a nação a uma guerra civil, para manter-se no poder. Assim, é preciso reescrever a história para que se chegue o mais próximo possível à VERDADE. Assim como Jango, aos poucos desaparecem da história brasileira, personagens colossais, como Miguel Arraes, Leonel Brizola, Dom Paulo Evaristo Arns sem contar com milhares de outros anônimos que de fato construíram o que hoje chamamos de “redemocratização”. Alguns destes anônimos sacrificaram suas vidas, expuseram-se à humilhações, foram submetidos à torturas de toda sorte. Não é justo esquecê-los, simplesmente ignorá-los ou ainda macular sua memória considerando-os simples subversivos. Diante disto, ao criar a comissão da verdade, a atual geração está apenas restaurando parte da dignidade das vítimas de um período que envergonha a todos que acreditam no inviolável direito à vida. É um inegável momento histórico, que não pode passar despercebido sob pena, de enterrarmos, além das vítimas, a história e a dignidade do povo brasileiro. Educar é também reescrever a história para que ela não repita seus horrores, para que os seres humanos possam lançar-se ao desafio de recomeçar de um jeito diferente. Educar é também honrar a memória de quem “não temeu a própria morte” diante da perspectiva de entregar às futuras gerações, uma “pátria mãe mais gentil”.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Corrupção: um crime contra a humanidade

O clima de democracia, a liberdade de imprensa e a coragem de denunciar tem estampado em jornais, sites e programas televisivos uma verdadeiro carcinoma de nosso tempo: a corrupção. Prédios públicos inacabados, obras superfaturas ou que nunca saíram do papel, mas que já foram pagas inúmeras vezes, são exemplos de nosso cotidiano jornalístico e já não chamam a atenção tanto quanto deveriam. Por esta razão já não nos indignamos mais e antes mesmo do desfecho já apostamos na impunidade absoluta. Mas é preciso analisar a corrupção em toda a sua complexidade uma vez que a lesão ao patrimônio público se dá forma dupla. Afinal ocorre a apropriação indébita (leia-se roubo) do que não pertence ao sujeito e com isso recursos que poderiam salvar vidas ou alfabetizar crianças não chega a seu destino. Expropria-se o dinheiro público e não se atende às demandas fundamentais da sociedade. Coloca-se em risco a vida e dignidade das pessoas, o que caracteriza um crime contra a humanidade. Assim quando são divulgados os milhões de reais desviados não se dá a devida atenção para a conseqüência que isto impõe. Estes números não são meros dados estatísticos, mas um vergonhoso desrespeito aos direitos humanos de toda a nação. Afinal, certamente com este dinheiro a qualidade da saúde, educação, segurança, lazer, rodovias, etc, poderia ser bem melhor. Um passo importante foi dado recentemente pelo STF ao validar a chamada “Lei da Ficha Limpa”. É uma luz de esperança que se acende no breu dos porões da deplorável prática de alguns políticos brasileiros. A Suprema Corte respondeu a altura, aos clamores e anseio da nação. Assim para concorrer a um cargo público é preciso ter um passado minimamente honrado, o que credencia o eleitor a fazer escolhas menos ruins. Mas obviamente o que se faz necessário e cada vez mais distante é uma ampla reforma política, através da qual a democracia possa se manifestar de forma mais substantiva. Financiamento público de campanha, formação política e capacidade técnica aos que ocupam cargo público, profissionalização da gestão púbica, punição à corruptos e corruptores são alguns passos muito esperados. Embora estes passos ainda sejam utópicos é preciso mobilizar a população mostrando a ela a barbárie cometida contra seu próprio patrimônio. Mas enquanto atenção da nação está voltada para o próximo capítulo da novela das oito ou com as intrigas “da casa mais vigiada do Brasil” torna-se difícil imaginar que os maiores interessados e manter tudo como está, façam alguma coisa. Talvez um dos maiores crimes cometidos contra a humanidade em favor da corrupção seja exatamente este: incapacitar as pessoas de refletir ou perceber o que é realmente significativo. Assim um pais mergulhado na corrupção é necessariamente alienado, com cidadãos permanentemente alimentados por uma falsa sensação de bem estar, consumindo ilusões e fantasias. Robotiza-se os seres humanos impondo-lhes uma condição de subserviência extrema. Algo excessivamente perverso, humilhante e cruel, que não nos dá o direito de permanecer alheios a história. Em outubro teremos uma excelente oportunidade de completar a obra iniciada pela Suprema Corte. Quem sabe, com o exemplo de bons gestores e legisladores municipais, poderemos partir para uma verdadeira faxina.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Inicio do ano letivo: compromisso e esperança!

Uma das grandes preocupações da escola moderna, especialmente a pública, é estabelecer um contato permanente com a família. Não para delegar a ela funções que cabem a escola, mas para fazê-la parceira, uma vez que a formação de um ser humano (criança) é muito mais complexa que a simples assimilação de conceitos ou conteúdos. Assim é preciso definir funções e compromissos. À escola cabe estabelecer meios de acesso e compreensão ao saber historicamente acumulado e divulgado, bem como estabelecer perspectivas em relação a sua (re)construção. A escola é essencialmente um espaço de formação crítica em relação ao mundo que cerca a criança e o adolescente. De maneira alguma poderá assumir as funções que cabem a família ou então delegar a ela aquilo que lhe cabe. À família cabe a construção de valores e princípios que permitirão à criança e ao adolescente ter discernimento e posturas para saber o que fazer com o saber que lhe é apresentado. É importante lembrar que em se tratando de século XXI a escola não é a primeira e muito menos a única fonte de contato com o saber. Assim estes valores serão imprescindíveis para que não sejam formadas gerações de “alienados”e “bem conduzidos” por toda sorte de tendência. Assim quando uma família “entrega” um filho ou filha à escola, não o está fazendo para que o eduquem, mas para que complementem aquela formação que iniciou em casa. Está apenas estendendo o rol de possibilidades de formação, permitindo a seu filho ou filha, concepção de novos sonhos e esperanças. Sonhos e esperanças que se desenham num cenário em que se pressupõe, já estão postos princípios consistentes e valores humanizantes. Sem esta parceria cria-se um clima de adversidade onde família e escola não lograrão êxito em suas ações, seus objetivos não serão alcançados e crianças e adolescentes serão enganados. Um pai que afirma não saber mais o que fazer com o seu filho anuncia um fracasso tão gigantesco quanto o da escola que não sabe como apresentá-lo com dignidade ao saber. A soma destes fracassos não resulta apenas em uma geração mal formada, mas numa forte ameaça ao futuro de todos. Assim, o início do ano letivo é também o início de uma jornada, a ser vivida com a seriedade comparada a de um pai que recebe um filho após o parto. Afinal, ao inserir seu filho num espaço que se propõe transformar o rumo de sua vida, o está expondo a um novo parto. Passará a conhecer letras, números, conceitos e saberes o que não permite ao conhecedor agir como se não conhecesse. Desta forma o inicio do ano letivo deve também selar o compromisso entre escola e família, no sentido de garantir às crianças e adolescentes a possibilidade de sonhar e ter esperanças. Um compromisso dialógico onde família e escola construirão caminhos seguros para que crianças e adolescentes sejam promovidos e jamais oprimidos pelo saber. Assim família e escola não são faces opostas de uma mesma moeda, mas parte de um cenário onde o espetáculo da vida se renova a cada dia.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Evolução tecnológica e extinção do saber

O fato de nos depararmos com milhares de pessoas absolutamente alheias a temas de grande relevância social e para a vida de cada sujeito revela o quanto estamos equivocados quando afirmamos que hoje o acesso ao saber é mais fácil e mais rápido. Quanto a rapidez e a facilidade não há o que discutir, mas o que se está acessando é realmente saber? Numa nação em que a maioria das pessoas sabem opinar apenas sobre o seu time de futebol e sobre o comportamento de alguns sujeitos confinados numa casa luxuosa de reality show, há que se pensar sobre o que está sendo apresentado às pessoas. Se houve e há uma preocupação concreta em elaborar meios físicos e logísticos para divulgar informações de forma rápida e eficiente, não se vê similar preocupação com a qualidade do que se dissemina. Em relação ao expectador, procura-se atingir as chamadas classes populares que teoricamente absorvem mais facilmente esta "massa de informações", por se tratar de algo facilmente compreendido o que se revela extremamente atraente. Mais ainda deturpam-se valores elevando-se à categoria de heróis, sujeitos que se permitem expor de forma imoral e aética, ridicularizando princípios que a maioria das mães e pais (estes sim verdadeiros heróis) buscam transmitir a seus filhos. Diante disto não há outra conclusão senão a de que a deterioração social e cultural de uma nação se constrói com a ajuda da tecnologia em mãos e mentes mal intencionadas. Trata-se de uma evidente extinção do saber, o qual permite estabelecer e compreender valores, princípios e condutas. Percebe-se, portanto, uma evolução tecnológica diretamente proporcional a uma involução intelectual lançando a grande massa num sistema poderosamente alienante. Esta alienação fere mortalmente qualquer possibilidade de consolidação de uma sociedade atenta e preparada para libertar-se dos modernos modos de opressão e repressão. Se no passado e no presente algumas ditaduras se valem de artifícios como a tortura, as democracias liberais alicerçam-se na alienação irrestrita. Indivíduos aprovados mas não preparados são lançados para fora da escola, iludidos de que seu saber lhe proporcionará dignidade e segurança. Uma ilusão dupla, pois não estão efetivamente preparados e o que levam não é saber, mas algumas informações sobre as quais são incapazes de refletir ou tecer críticas. Alguns sequer sabem ler, apenas soletram frases e desenham letras. Uma realidade cruel diante dos múltiplos desafios que se apresentam sempre mais complexos, dinâmicos e difusos. A escola (pública e privada) por sua vez se vê refém de políticas públicas inconsistentes e tendências mercadológicas que transformam a educação em mero tema político eleitoreiro ou produto a ser comercializado a qualquer condição. Indivíduos que conhecem as melhores lojas e fest foods, as músicas mais tocadas do momento (com apenas meia dúzia de frases soltas); mas que sequer imaginam que existem lojas que vendem livros; que ridicularizam artistas que proclamaram sua indignação e a de uma nação pelas suas músicas. O berço não lhe ofereceu condições para compreender que arte e entretenimento podem formar sujeitos melhores, mais atentos, mas críticos e menos oprimidos. Aqui cabe questionar: a quanto tempo não surge em nosso país um grande ícone da arte ou da literatura? Por que nossos grandes autores e pensadores pertencem aos séculos passados? Não há grandes pensadores e artistas no século XXI no Brasil? Não há dúvidas que há, mas a mídia não lhe oferece espaço e mesmo que ofereça os expectadores, em sua maioria não lhe dariam a devida atenção. As "facilidades" midiáticas, o despreparo da escola e o comodismo familiar, somados às múltiplas "intenções" de um sistema que privilegia o capital em detrimento do social e do cultural, tende a levar o saber a sua extinção. Enquanto pensar for "coisa de intelectual" e ser intelectualizado é ser "chato" continuamos transformando auto-ajuda em filosofia, imoralidade em diversão, elegendo quem nos oprime, trabalhando por menos do que merecemos e sendo menos felizes do que deveríamos.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Enfim 2012...

Enfim 2012! As previsões afirmam que este será o ano derradeiro. Será mesmo verdade? Haverá mesmo uma grande hecatombe? Quais as chances reais disto acontecer? Escusem-me os místicos e supersticiosos de plantão, mas valo-me da ciência para dizer que a chance disto acontecer em 2012 é a mesma de acontecer neste exato momento ou em qualquer outro. Considerando a ordem natural dos acontecimentos é preciso dizer que cronologicamente 2012 será um ano de grandes demandas. Demandas políticas, econômicas, sociais, ambientais e humanitárias para evitar o grande colapso planetário. Afinal a América estará em eleições e como a grande parte do mundo subserviente veleja pelos sopros “generosos” de Tio San, guerras começam e terminam num piscar de olhos; nações inteiras rastejam pedindo clemência econômica e sacrificando seu povo para manter algumas poucas economias num nível mínimo de sustentabilidade. Nem mesmo as cada vez mais intensas e frequentes tragédias ambientais despertam os gigantes econômicos para a enorme tarefa de salvar a vida do Planeta. Em nosso país haverá uma nova eleição municipal, momento sublime da democracia em consolidação e de grande expectativa enquanto se decide se corrupção é crime. Sem dúvida um tempo de eleitores confusos e perplexos com um grande poder em suas mãos e com enorme dúvida se poderão exerce-lo de fato. Afinal a Ficha Limpa vale ou não vale? Em 2012, finalmente integridade e decência serão importantes ou ainda vamos tentar escolher o menos pior? Estaremos diante de uma hecatombe previsível até para o maior dos céticos? Será enfim 2012, o ano da quebra de alguns dos mais odiosos paradigmas como o de que nem todos podem e os que podem sempre querem poder mais? Será em 2012 o início de uma nova forma de convívio entre os diferentes seres humanos? A Terra será vista com a grande Mãe (viva) e geradora de vida? No que depender de nossos desejos, repetidos ano após ano, sabemos quais seriam as respostas, porém ainda nos predemos a esperanças. Apenas lamentáveis esperanças! Afinal que todos sejam tratados por igual, que todos se respeitem e que a Terra seja santuário de vida é extremamente elementar num mundo que se diz pós-moderno. Mas afinal se não houver esperança, perderíamos a razão de lutar por algo que ainda não temos, seja ou não elementar. Mesmo que nada do que desejamos se realize conforme imaginamos, que não cheguemos ao final de 2012 lamentando a covarde postura de quem sequer se dispôs a fazer sua parte. Que em 2012, façamos a nossa parte, sejamos felizes e façamos a felicidades dos que nos acompanham pela vida!

Quem sou eu

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Benedito Novo, Santa Catarina, Brazil
Sou Mestre em educação, graduado em Biologia e Matemática, professor da rede estadual de Santa Catarina, com experiência em educação a distância, ensino superior e pós-gradução. Sou autor e tutor de cursos na área da educação no Instituto Veritas (Ascurra) e na Atena Cursos (Timbó). Também tenho escrito constantemente para a Coluna "Artigo do Leitor" do "Jornal do Médio Vale" e para a revista eletrônica "Gestão Universitária". Fui diretor da EEB Frei Lucínio Korte (2003-2004) e secretário municipal da Educação e Promoção Social de Doutor Pedrinho (2005). Já atuei na rede municipal de ensino de Timbó. Em 2004 coordenei a campanha que conduziu à eleição do Prefeito Ercides Giacomozzi (PMDB) à prefeitura de Doutor Pedrinho. Em 2011 assumi pela segunda vez, a direção da EEB Frei Lucínio Korte.