Que bom que você está aqui!

É com prazer que te recebo neste espaço! Esta "casa" virtual está em permanente construção e em cada "cômodo" há uma inquietante necessidade de fazer diferente! Meus textos, relatos e imagens buscam apresentar a você os passos que constituem minha caminhada pessoal, profissional e acadêmica. A partilha que faço não intui caracterizar-se por uma postura doutrinária, autoritária ou impositiva-opressora, mas ao contrário, apresenta-se como ato solidário (jamais solitário) de contribuição à discussões humanas, planetárias e éticas!



Como educador me vejo no compromisso de participar do processo histórico de libertação dos oprimidos, marginalizados e esquecidos, a começar por mim. Despindo-me de qualquer resquício de arrogância, prepotência e soberba apresento-me como aprendente num contexto de intensa renovação de conceitos e atitudes!



Assim convido-o a juntos pensarmos em nossa condição de partícipes da grande Salvação! Salvação plena do homem e da mulher místicos, políticos e planetários!



Fraterno abraço!








Casa Rosada - sede do governo argentino. Em frente está a Praça de Maio. É um local em que é possível conhecer um pouco da história e da cultura argentina.

domingo, 20 de março de 2011

Campanha pela fraternidade

Mais uma vez a CNBB promove uma campanha em nível nacional em favor de um tema de interesse de todos os brasileiros, não apenas dos católicos. Apresentada às vésperas da Páscoa, serve de inspiração para amplas reflexões no período de Quaresma, segundo a tradição católica. Por ser um período de rever conceitos e atitudes é bastante oportuno, por exemplo, tratar de questões ambientais, como é caso da campanha de 2011.

Mas analisando todos os temas objetos de dezenas de campanhas passadas pode-se dizer que é fundamental estabelecer a fraternidade como instrumento de convívio entre os seres humanos. Em relação a questão ambiental, é evidente a absoluta falta de fraternidade entre as pessoas e entre as diferentes gerações.

A falta de preocupação em cuidar da água, do solo, do ar e de tudo o que está vivo é um sinal claro que não há entre as pessoas um verdadeiro sentimento fraterno. A destruição de fontes de recursos e de vida nos inspiram a buscar uma campanha pela fraternidade onde todos se sintam responsáveis pelo bem estar e pela qualidade de vida de todos os seres que habitam a Terra.

A campanha pela fraternidade haveria de ser um compromisso constante e assumido por todos, independe de sua condição econômica, social, religiosa ou política. O fato do planeta ser uma espécie de condomínio global faz com que todos precisem sentir-se responsáveis uns pelos outros. Do contrário, sem a fraternidade universal não há como esperar empenho e participação da coletividade.

Como numa grande família, cada qual precisa fazer sua parte, apreciar o cuidado com o que é seu e com o que é de todos. Responsabilizar-se por aquilo que lhe cabe, disponibilizar suas habilidades e humildemente reconhecer suas limitações. A prática da fraternidade é antes de tudo um ato de humanidade e humildade. Ser solidário, ético e sensível são qualidades fundamentais que precisam ser estimulados para que o presente nos permita sonhar minimamente com o futuro.

Chamar a todos de irmão é relativamente fácil, o desafio é conviver como tal. Cuidar do planeta, preservar a vida e conviver dignamente são compromissos fundamentais para que as futuras campanhas da fraternidade ecoem e produzam os resultados esperados e necessários. Mas se a atual campanha da fraternidade servir como inicio de uma discussão mais comprometida e séria sobre a questão ambiental, poderemos ter um pouco mais de esperança em relação ao futuro.

Se a vida for melhor respeitada e o planeta melhor cuidado poderemos dizer que estamos convivendo em fraternidade. Porém, enquanto a cor da pele, a prática religiosa ou qualquer diferença entre seres humanos for utilizada como justificativa para perseguir, excluir e até matar, estamos condenados a desperdiçar o pouco de tempo que ainda nos resta.

sábado, 12 de março de 2011

Problemas de aprendizagem x problemas de ensino

Uma das grandes preocupações de educadores, gestores e estudiosos da educação está na discussão e resolução dos problemas relacionados à dificuldade de aprendizagem de crianças e adolescentes. De fato eles existem e comprometem significativamente o sucesso do processo educativo. Mas um grande equivoco é abordá-los isoladamente como se fossem resultado exclusivo da má vontade em aprender ou de fatores externos, como os genéticos. Como aprender é resultado de um processo que se inicia com o planejamento estratégico e metodológico é preciso afirmar que os problemas de aprendizagem, em sua maioria, derivam de problemas de ensino.

A insistência em considerar a mente das crianças como páginas em branco e enaltecer a supremacia dos saberes historicamente sistematizados pela humanidade ocultou intencionalmente a gravidade da problemática educacional. Transferiram-se e ocultaram-se responsabilidades por comodidade e por insensibilidade, gerando exclusão e distorções incorrigíveis. Não se trata de estabelecer culpados e vítimas, mas de construir uma análise justa e coerente para que se possa construir um novo processo educativo.

Este novo processo deverá considerar a complexidade que envolve a relação entre ensino e aprendizagem partindo da necessidade de se reconhecer o profissionalismo do educador como base para uma verdadeira reinvenção do ato de educar. Os tradicionais discursos que mencionam o educador como mediador, vocacionado e multifuncional deturpam e degeneram sua real dimensão profissional, política, planetária e ética.

Outro aspecto que merece ampla revisão é a avaliação que tem sido mais classificatória, diagnóstica e até punitiva do que transformativa e construtora. A avaliação é assim, destinada à aprendizagem, sem tratar diretamente do ensino, unilateralizando demandas e preocupações. Numa perspectiva transformadora e construtora a avaliação é essencialmente um momento de consolidação de mudanças de estratégias em direção a uma formação efetivamente significativa e relevante. Vista desta forma, a avaliação torna-se instrumento de aperfeiçoamento e desvelo de equívocos, vislumbrando uma nova postura frente a eventuais carências.

Um terceiro aspecto, mas não menos importante, é a metodologia a ser adotada frente a cada realidade e a cada tempo. Não são tecnologias e teorias complexas que revelam a praticidade necessária na formação efetiva de sujeitos cidadãos e sensíveis ao seu próprio contexto. Práticas contextualizadas que revelam um significado singular à realidade de educandos e educadores, dispensam complexas teorias e instrumentos, oportunizando uma educação capaz de associar ensino e aprendizagem, como resultado de um momento de solidariedade e de compaixão.

Educar é, além da soma do ensino e da aprendizagem, uma atitude profissional e atenta a cada momento do processo de formação humana, sem ignora-lhe o seu elevado grau de complexidade e simplicidade. Complexidade por que não há uniformidade, mas uma indescritível diversidade; simplicidade por que educar é fazer do contexto de cada educando, um rico instrumento de humanização e sensibilização. Educar, desta forma é dar significado e esperança à quem não há outra caminho senão iniciar sua vida transformando-a.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Universalização do acesso e da qualidade do processo educativo no ensino fundamental

Um dos grandes desafios do século XXI é garantir o acesso à educação a todos os cidadãos. Esta garantia não se resume apenas a gestão, mas principalmente ao que diz respeito ao planejamento estratégico e metodológico do processo educativo. Se em tempos idos o grande desafio era universalizar o acesso físico de crianças e adolescentes ao ensino fundamental este é o momento de se refletir e agir em favor da universalização da qualidade do ato educativo.

Se crianças e adolescentes possuem vaga garantida em salas de aula, este é o momento de se questionar o impacto social, humano, ecológico e econômico deste avanço. Se a prerrogativa da quantidade está praticamente garantida, agora é preciso estender esta garantia à qualidade. Inúmeras discussões lançam-se ao desafio de conceituar epistemologicamente o termo “qualidade de ensino” a fim de propor uma prática educativa comprometida em transformar estatísticas em dignidade, qualidade de vida e bem-estar social.

Esta transformação em que quantidade e qualidade tornam-se parceiros indissociáveis de um complexo processo de intensa sensibilidade exige uma postura ética de todo o conjunto da sociedade, especialmente de educadores e gestores. O primeiro passo para aliar qualidade e quantidade em favor de uma nova proposta estratégica e metodológica de ensino, é romper com a indiferença gerada por números e estatísticas.

O simples aumento em índices avaliativos como o IDEB não reflete a desejada evolução qualitativa, que permanece à margem das grandes preocupações quando se discute políticas públicas de ensino. Ostentar índices e alardear números sem a devida atenção à qualidade é postura antiética e desumana, mascarando um processo de degradação da essência do ato educativo. Esta essência está em oferecer esperança e instrumentos de (trans)formação para a vida daqueles a quem é negado o direito de partilhar e contribuir na construção da riqueza do país.

O elevando índice de pessoas egressas do ensino fundamental incapazes de interpretar um texto ou desenvolver um raciocínio lógico elementar, evidenciam a gravidade da preocupação com a qualidade do ato educativo. A indiferença em relação aos chamados analfabetos funcionais, é uma atitude de desumanidade, visto que mascarra uma grave carência humana, que impede a idealização de sonhos e projetos de vida.

Estes sonhos e projetos de vida, por sua vez necessitam de uma “alfabetização planetária”, através da qual sejam inseridos numa perspectiva de formação de sujeitos auto-críticos, sensíveis, éticos e comprometidos com tudo o que existe e vive sobre o planeta. Ler e escrever passam a ser atos menos mecânico e previsível, para se transformar em momentos de (re)construção e dinamicidade. Mais do que interpretar códigos e executar processos repetitivos, saber ler e escrever significa inserir o sujeito num qualificado projeto de autoria, garantido-lhe a possibilidade de trilhar seu caminho e estabelecer suas próprias perspectivas.

Esta (trans)formação não será alcançada por decretos, mas por um comprometimento de educadores, gestores e famílias no sentido de oferecer uma formação capaz de intervir na vida das pessoas. Esta intervenção será estruturada a partir da compreensão da realidade temporal e do contexto em que o processo educativo ocorre. É esta relação que determinará qualidade ao processo educativo, fazendo-o significativo e relevante.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Gestão Pública Escolar: questões éticas

A gestão pública apresenta princípios que a diferenciam da gestão privada, especialmente no que diz respeito à questões de ordem ética. do ponto de vista prático obedecem a princípios comuns como os da economicidade, racionalidade e legalidade. Há outros, entretanto que são peculiares a cada modelo. Em relação a gestão pública há princípios éticos que necessitam ser observados como publicidade, moralidade e eticidade.

Em relação a escola pública, estes princípios se tornam ainda mais visíveis e relevantes, pois para uma grande maioria da população, se constitui na única esperança concreta de viabilizar seu futuro. Administrar uma escola pública, neste contexto, significa também administrar esperanças e projetos que poderão transformar vidas.

Assim o cuidado com o patrimônio e com os recursos que financiam a escola pública requer uma série de convicções de gestão como a otimização destes recursos e a preocupação em reverter em resultados, cada centavo aplicado. Estes resultados se caracterizam pela qualidade de ensino e especialmente da aprendizagem. Estas preocupações não estão nitidamente manifestadas pela legislação vigente, mas se constituem em princípios éticos derivados do comprometimento de gestores em favor da qualidade do que ocorre no espaço escolar.

Os princípios a que nos referimos derivam também do comprometimento do gestor da escola pública com a comunidade em que se insere, percebendo as suas mazelas e demandas. Assim, o exercício da gestão da escola pública, é também um exercício de sensibilidade e solidariedade para com as fragilidades de cada comunidade. Por esta razão é importante que as esferas financiadoras das escolas públicas consolidem o processo de descentralização de recursos para que cada instituição possa atender a sua comunidade de forma democrática e cidadã.

Assim a gestão da escola pública não se resume apenas ao gerenciamento de recursos, servidores ou patrimônio, mas de expectativas. Envolvem-se diferentes segmentos que munidos de ideologias, concepções e opiniões convergentes e divergentes, apresentam-se em constantes conflitos que fazem da escola pública um espaço de aprendizagem prática. Mais do que discutir ética, democracia, cidadania e outros princípios, a gestão poderá e deverá expor de forma prática, as implicações cotidianas destes princípios.

A gestão da escola pública, portanto constitui-se num espaço coletivo de tomada de decisões partindo da preocupação em garantir a qualidade de seu trabalho. Promover o bem comum e a formação ética dos cidadãos requer gestores, educadores e famílias em constante diálogo, construindo propósitos coletivos, com transparência e comprometimento social. É, pois um desafio a ser assumido coletivamente para que a comunidade se perceba presente na gestão da escola pública.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Um novo educador para um novo tempo: formação e ética no uso das mídias no processo educativo

A evolução do processo de socialização e racionalização do homem caminha a passos largos e rápidos, como nunca visto. Processos e métodos têm multiplicado a velocidade com que saberes e conhecimentos são produzidos e disseminados, estabelecendo novas relações do homem com o conhecimento. Novas demandas surgem como: acessibilidade aos meios de produção e de disseminação de informações; observância de valores e princípios éticos no uso destes meios; inserção das mídias no processo educativo. Estas discussões se tornam ainda mais significativas, tendo em vista, que o século XXI, em sua primeira década tem se revelado, o tempo das tecnologias no processo educativo.

Investimentos na aquisição de equipamentos, na criação de softwares educacionais e na qualificação de profissionais para o seu uso, fazem das mídias um importante aliado na proposição de uma nova forma educar seres humanos. O ingresso dos educadores nos vastos campos do universo midiático virtual lhe exige uma pré-disposição à transformação, convertendo-o num profissional em constante conflito com posturas e metodologias engessadas e retrógradas.

Assim, se na indústria convencional, as tecnologias representaram uma ameaça para os trabalhadores menos qualificados, na educação não é diferente. Porém, se na indústria a preocupação está no aumento da produção, na educação o enfoque é outro. A preocupação está na garantia de que todos tenham acesso à informação de forma equânime e saibam utilizá-la de forma a garantir-lhe qualidade de vida. Desta forma o educador do século XXI não será um tecnólogo em informática, mas um profissional que estabeleça uma relação ética entre o saber e o educando.

Mesmo diante deste universo efervescente de transformações e inovações é preciso lembrar que ninguém será capaz de substituir a relação entre seres humanos no processo educativo. Ao contrário, as mídias e todas as tecnologias agregadas a elas, servirão para que se tenham ainda mais tempo e motivos para fortalecer estas relações. O simples contato com o saber não significa aprendizagem, ao contrário, pode representar alienação, dominação e até exclusão.

Alienação pelo fato de que a não compreensão do que é disseminado pelas mídias pode distorcer a possibilidade transformadora daquele saber. O simples fato de estar informado, não garante ao sujeito que ele seja capaz utilizar aquela informação a seu favor e para o bem comum. Pode-se afirmar que um alienado informado pode assumir uma postura arrogante e prepotente convencendo de sua suposta superioridade frente aos demais.

A dominação se manifesta quando as informações são repassadas de tal forma que suas verdadeiras intenções permanecem obscuras. O uso de termos, expressões e a manipulação de estratégias de linguagem podem induzir às pessoas a submeter-se ao domínio de quem detêm a possibilidade de “rechear” os ambientes midiáticos de conceitos e idéias reacionárias. É sem dúvida, muito difícil identificar e desfazer este direcionamento, dada a velocidade com que as posturas reacionárias e dominadoras se dissemina.

A exclusão pode se dar pelo simples fato de que um grande contingente de seres humanos simplesmente não tem acesso a este novo universo, como pela incapacidade de perceber as intenções de determinadas informações ou conteúdos. Independente da forma, a exclusão se revela cruel e desumana, pois incide sobre a massa menos favorecida, fortalecendo o domínio da minoria sobre a maioria.

Assim, o educador do século XXI será um sujeito (trans)formado e comprometido com valores éticos e humanos. Mais do que saber conteúdos, necessita ser um sujeito apto a discutir saberes científicos e a analisar informações com base em valores. É fundamental que seja capaz da analisar a historicidade, o contexto e a intencionalidade de informações disseminadas através das mídias, transformando-as num rico espaço de desenvolvimento da criatividade, curiosidade e criticidade. Isto será possível através de uma postura ética do educador, que fará do educando um sujeito de esperança, de compaixão, de solidariedade em favor de uma sociedade em que todos convivam dignamente.

Como fabricar cadeiras e camisetas, cultivar eucaliptos e educar crianças!

O início das aulas é um momento em que muitos sentimentos se avivam. Para alguns representa o seu primeiro contato com um novo mundo, um verdadeiro parto. Novos amigos, novas possibilidades! Para outros é a continuidade de uma jornada que já vem se desenhando a vários anos. Há também os que iniciam seu último ano de estudos. Não podemos esquecer daqueles que já contam os dias para as próximas férias.

Mas de qualquer forma é tempo de novidades. Para os educadores é um recomeço, cheio de expectativas, esperanças, dúvidas, medos e certezas. Não podemos esquecer daqueles educadores, que da mesma forma que os educandos, também contam os dias para as próximas férias. Há um contingente de educadores que se vê como operário da educação. Confunde a formação de uma criança com atividades como fabricar uma cadeira, costurar uma camiseta ou plantar eucaliptos! Mas quais as consequências disto? Ao fabricar uma cadeira, o marceneiro estabelece medidas, escolhe a madeira, mas dificilmente imagina quem nela sentará! Quem recorta um tecido e com ele costura uma camiseta o faz a partir de um molde. Pouco se preocupa em saber quem irá vesti-la.

Desta maneira, preocupam-se com um produto, não com um resultado! O educador, ao contrário do marceneiro ou do costureiro, deve ter como foco a preocupação com quem irá estar diante dele no momento em que estiver propondo a discussão de um conceito. Além de preocupar-se com o que irá tratar em suas disciplinas precisa dispensar especial atenção às características, sentimentos e necessidades daqueles que estiverem numa sala de aula iniciando ou continuando sua vida escolar. Sem esquecer é claro daqueles que estão ansiosos, aguardando as próximas férias.

Mas, e os eucaliptos? Bem, um bosque de eucaliptos é cultivado, selecionando as melhores sementes, preparando as melhores mudas e plantando-as a uma distância padrão para que cresçam e produzam madeira. Seus troncos e copas serão muito parecidos. As mesmas cores, os mesmos odores e o mesmo formato. Assim não é difícil comparar salas de aula a verdadeiros bosques de eucaliptos. Os “melhores” alunos, alinhados, enfileirados, declamando conceitos e frases em coro! A mesma postura, as mesmas atitudes!

Assim profissionais e grandes “conhecedores” da educação estabelecem justificativas para atitudes e posturas que transformam seres humanos em objetos ou árvores. Crianças não são fabricadas ou plantadas. Precisam ser estimuladas e compreendidas por uma escola que as façam superar-se e surpreender-se. Sem moldes e formatos padronizados, precisamos de uma escola corajosa, capaz de aceitar suas imperfeições e lançar-se ao desafio de fazer diferente.

Fazer diferente significa fazer da escola e da educação um espaço de promoção dos seres humanos, estimulando a sensibilidade, o respeito e a solidariedade. Seres humanos que jamais possam ser comparados a cadeiras, camisetas ou eucaliptos. Educar crianças é, pois um ato de humanidade, uma aposta no futuro. Educar uma criança é garantir o direito de ter esperança!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Novos refugiados!

Desde que me conheço por gente, ouço falar de refugiados. Sempre que isso acontecia se via milhares de pessoas deixando sua terra para se proteger de grandes genocídios provocados por guerras, terror, etc. O resultado disto é que temos nações inteiras desalojadas, culturas dizimadas, identidades destruídas, dignidade perdida. Apesar disto ainda resta uma sinal de esperança de um dia poder voltar à sua pátria ou até mesmo (re)construí-la se for necessário.
Mas os tempos são outros, e como tantas coisas, o modelo de refugiados também é outro. Os novos flagelos humanos são os que vêem sua, sua cidade, sua nação simplesmente desaparecer. A estes, portanto nem a esperança resta. São os refugiados climáticos. Os deserdados ambientais. Literalmente o chão lhe sumiu aos pés! Não há mais para onde voltar. Discutir as causas já não é mais o tônus do debate, mas dúvidas como: o que acontecerá com estas pessoas? Quem os acolherá? Quantos serão?
O exemplo recente do Rio de Janeiro, traz a lembrança tragédias ocorridas também em Pernambuco e Alagoas em 2010 e Santa Catarina em 2008. Milhares de pessoas simplesmente não terão para onde voltar... Embora o quadro se desenhe assustador, não chega a surpreender! É a expressão do esgotamento, da exaustão!
Tuvalu, um arquipélago-nação no meio do Pacífico está condenado a desaparecer em poucos anos e outros paraísos e cidades litorâneas de todo o mundo estão na lista! Sem contar nos milhões de quilômetros de desertos que eclodem em meio a florestas e áreas produtivas. A medida que os tempos passam parece que nos aproximamos de um caos interminável, cruel, indigno e injusto!
A triste sentença que condena a humanidade ao caos vem sendo aplicada a todos. Se a prevenção não foi tomada como necessária, que se tome o remédio como obrigatório. Evidentemente que oferecer uma nova casa, construir uma nova cidade, um novo bairro não devolverá aos refugiados climáticos, a sua dignidade. Ser gente é muito mais do que habitar, sobreviver. Ser gente é ter identidade, história, passado, lugar.
Imagine o leitor e a leitora, se de uma hora para outra fosse preciso se implantar num outro lugar, com novos hábitos, novas condutas; se seu passado simplesmente fosse engolido pelo caos ambiental; se fosse necessário literalmente nascer de novo. Este novo nascer não é como curar-se de uma terrível doença ou de um grave acidente. É morrer e ser obrigado a assistir a própria morte.
O mais surpreendente é que pouco se fala a respeito disso. A imprensa tem tratado modestamente o assunto e quando trata é de forma superficial. A grande mídia prefere ignorar e mostrar a tragédia até fazer dela um fato comum. O tema causa constrangimento a quem tem a obrigação de apontar soluções, mesmo porque são os causadores desta tragédia. Como justificativa há quem afirme tudo isso é fruto do processo de globalização. Vale dizer que seja qual for o processo temos seres humanos em questão.
Se não temos como devolver a dignidade perdida, que não se permita que mais gente a perca. Que se tomem urgentes providências, que a ONU cumpra seu papel, que as igrejas façam valer seu poder, que os governos democratas arrastem pelo exemplo. Enfim que a humanidade seja capaz de oferecer a si mesma a esperança de que o fim não está tão próximo quanto se tem previsto. A menos que estejamos diante de uma espécie kamikaze.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Perigo e Medo do Ócio!

A convivência pode ser uma virtude ou um problema para o ser humano. Os excessos de convivência podem gerar conflitos, a falta de postura no ato de conviver pode torná-lo inviável. Isso entre vizinhos, parentes distantes, amigos, colegas de trabalho, etc. Mas entre pais e filhos, esposo e esposa a realidade é outra. A convivência é o que há de fundamental para que sintam fortalecidos os laços que os unem. O tempo ocioso (férias, finais de semana) é o espaço entre uma jornada e outra em que o convívio se faz acontecer. É um exercício de humanidade. Somente o ser humano é capaz de fazer do tempo ocioso, um tempo de vida, bem-querer. Um tempo para sentir-se feliz, sentir-se gente. Para analisar este tema utilizo-me de dois ditos populares: “mente ociosa, oficina do diabo” e “o trabalho dignifica o homem”.

O primeiro refere-se ao fato de que é preciso manter a mente das pessoas ocupadas com “coisas úteis” para que não se quede ao mal. Estas coisas úteis são: o trabalho, cursinhos intensivos, participação em grupos sociais, etc. Quem já não recebeu através de seu correio eletrônico, convites para fazer cursinhos ou participar de alguma atividade enquanto está gozando de suas férias ou para as suas horas ociosas? É preciso que as pessoas saiam de suas casas, afastem-se de seus familiares mais próximos. Talvez por isso muitos pais não saibam o que fazer com seus filhos nos períodos de férias ou num dia em que a escola pare para alguma reunião ou num final de semana.

A segunda refere-se ao fato de que o um ser humano será completo se exercer alguma atividade laboral. O trabalho não é apenas uma questão de sobrevivência, mas de garantia de que se pertence a um grupo seleto de pessoas: as dignas. O trabalho dignifica o homem sim, mas quando exercido com dignidade. Ao tornar o homem escravo de uma rotina perversa, que o exclua do convívio da família, transforma-o numa máquina, sem dignidade e sem vida.

O medo do ócio e o perigo por ele gerado tem transformado o ser humano numa “coisa”. Não é gratuita a preocupação de algumas pessoas em ser substituídas por máquinas, afinal fazem de sua vida o que qualquer máquina faria. Muitas vezes esta preocupação tem se confirmado, pois a tecnologia, criada pelo próprio homem, ao contrário de lhe oferecer mais tempo para o convívio, tira-lhe o sustento e a própria dignidade. A geração atual tem ocupado o seu tempo trabalhando e se especializando para garantir seu espaço no mercado de trabalho.

Os filhos são criados por estranhos, os velhos acompanhados por cuidadores! Refeição em família torna-se parte da tradição de Natal. No cotidiano diário não há refeições e muito menos em família. Como imaginar “perder tempo” para almoçar? Teríamos então um terceiro jargão: “tempo é dinheiro”. O mesmo dinheiro usado para custear longos tratamentos médicos de quem durante décadas não cuidou de seu corpo. De quem fez do ócio seu maior inimigo, transformando-o em um verdadeiro demônio.

Ser gente ainda é algo que somente as pessoas sabem fazer. Trabalhar, estudar são invenções que devem ajudar as pessoas a ser mais gente; a ter mais tempo para as outras pessoas. Uma conversa à mesa, uma brincadeira na varanda, uma pescaria, um bom livro são coisas de gente. Gente que faz de seu ócio um tempo de felicidade!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Um novo tempo!

Chega-se ao final da primeira década do século XXI e do terceiro Milênio com a consciência e a certeza de que é preciso fazer uma nova história. Se o século XX foi marcado pela violência, depredação ambiental e pelo distanciamento entre pobres e ricos, no século XXI há uma busca pela paz, pela preservação ambiental e pela redistribuição das riquezas. Se o século XX foi marcado pela constante inovação tecnológica, pelo surgimento das grandes redes de informação o século XXI, em sua primeira década, vê a ecologia e a espiritualidade dominarem não apenas a literatura, mas também o cotidiano das pessoas. Pode-se dizer que estamos num novo tempo.

Obviamente estamos ainda vivendo uma fase embrionária desta profunda transformação, mas é assim que se começa. Novos valores e novas perspectivas surgem diante da constatação da inviabilidade do modelo construído ao longo do tempo, especialmente no século XX. A humanidade se percebeu ameaçada, e notou que a ameaça vem dela própria. A dominação, o controle e o apoderamento cedem lugar ao cuidado e a compaixão. Não o cuidado e a compaixão do mais forte para o mais fraco, mas de todos os seres humanos, uns para com os outros.

Um cuidado que leva em consideração a necessidade de que todos sejam tratados com igualdade. Um cuidado planetário, através do qual seja garantida vida digna a tudo o que habita o planeta. Percebeu-se finalmente que o capital e o poder perdem totalmente a sua importância se não houver garantias básicas à vida. Assim a ecologia não é apenas uma ciência que trata de questões ligadas ao meio ambiente, mas a vida, a dignidade e a possibilidade de futuro para o planeta. É preciso por isso além de cuidar de nossas florestas e rios, é preciso atenção especial à saúde, saneamento básico, segurança, etc.

Outra tendência é a retomada da condição espiritual, que caracteriza o ser humano, como sujeito de transcendência. O ser humano não se vê apenas como um corpo, mas como um ser privilegiado, que dispõe de um espaço único no planeta. Descobriu, depois de séculos, que sua vida e a do planeta estão ameaçados por ele mesmo. Essa nova condição, exige um novo homem e uma nova mulher! Não há como imaginar um novo tempo, repetindo erros e insistindo nas mesmas atitudes.

Neste sentido em 2011 é preciso avançar! Poluir menos, cuidar melhor do lixo, caminhar mais, alimentar-se melhor, disseminar e viver a paz, conviver mais e melhor! Não basta desejar as melhores coisas para o ano que virá, mas comprometer-se efetivamente em promovê-las. Do contrário, ao final de 2011 estaremos desejando as mesmas coisas para 2012. Enquanto desejarmos aos outros e não construirmos para nós e com os outros, tudo não passará de mera formalidade.

domingo, 19 de dezembro de 2010

O “Verdadeiro sentido” do Natal

A celebração do Natal é sempre um tempo especial. Religiosidade, consumo, tradição, luzes, ceia, são alvo da atenção das pessoas. É comum também encontrar quem queira reinventar o Natal, relembrando o chamado “verdadeiro sentido” da data. Um discurso repetitivo e de pouco impacto, visto que tudo o que se critica num ano se repete no outro. Afinal qual o problema? Imagino que seja o fato de que alguns se julgam capazes de descrever este “verdadeiro sentido”. O fato é que cada ser humano é capaz de construir em si e por si este “verdadeiro sentido”.

Certamente não se constrói um “verdadeiro sentido”, para o Natal ou para qualquer coisa, de uma hora para outra. Sentimentos, valores e sentidos tornam-se importantes a partir do momento em que são experimentados. Ora, se a história de uma pessoa e de uma sociedade é um caminho sem volta não há como reconduzi-los a um “verdadeiro sentido” para o Natal. É preciso então construir um novo sentido para o Natal, que seja adequado ao século XXI. Um século que ainda insiste em preservar a perversidade dos outros passados.

Fome, miséria, violência, corrupção, desperdício, analfabetismo estão presentes nos repetitivos discursos proferidos pelos quatro cantos do planeta. Esta repetição é um sinal claro de que estes temas nunca foram prioridade e desta forma torna-se difícil de acreditar que agora, finalmente sejam. Então, é preciso perguntar: Há realmente sinceridade nestes discursos sobre Natal e sobre as prioridades em relação ao futuro? Enquanto estes discursos forem motivados puramente pela emoção e por marqueteiros seria leviano alimentar expectativas. Enquanto a solidariedade entre as pessoas se limitar a campanhas de arrecadação de alimentos, brinquedos e roupas para distribuir por ocasião do Natal, continuaremos a ter miseráveis, famintos e flagelados pelos séculos.

Estas iniciativas são louváveis e merecem aplausos e reconhecimento pelo esforço e caridade de pessoas que se sensibilizam com a miséria alheia. Mas é preciso mais! A compreensão do “verdadeiro sentido” do Natal e da solidariedade passa pelo entendimento de que é preciso construir uma nação que dê oportunidade a todos. Nada mais digno para um pai ou mãe de família, ver sua mesa repleta de alimentos, justiça e esperança. Assim, esmola e caridade não serão mais necessárias e em seu lugar celebraremos a partilha, onde todos tenham a dar e a receber.

Enquanto o Natal for apenas uma vez por ano e para algumas pessoas seu “verdadeiro sentido” jamais será compreendido. A celebração do Natal diário só será possível quando os tiros cederam lugar aos abraços, as guerras ao encontros, a fome à fartura, o flagelo ao bem-viver, a morte à vida. Então haverá mais tempo para a criança brincar, para pais e mães dialogarem, vovôs e vovós orgulhosos contarem sua caminhada! Haverá um lugar em cada coração e em cada família, para o Menino nascer a cada dia.

Educação para a Paz!

Os episódios ocorridos no Rio de Janeiro remetem a sociedade a inúmeras discussões. Discussões de ordem política, social, humana e também educacional. Após as ocupações policiais dos morros cariocas pelo Estado é preciso estabelecer estratégias para que esta ocupação seja também uma ocupação cidadã. Antes disso é preciso dizer que a criação de um verdadeiro Estado paralelo, comandado por traficantes, assassinos e outras categorias de criminosos, não é fruto do acaso.

Este comandantes são fruto da omissão, da subserviência e da incompetência do poder público que falhou primeiramente na educação e seguiu impotente em áreas como saúde, lazer e segurança. Portanto, para evitar que novos “Complexos do Alemão” surjam pelo país, já temos uma lição ensinada pelo silêncio de inocentes e pelo sangue derramado pelo martírio de cidadãos historicamente esquecidos pelo Estado.

A falta de uma educação estruturada em valores e princípios de defesa da vida, portanto éticos, se traduz em fatos abomináveis. Os fatos do Rio de Janeiro são um exemplo de absurdos que se constroem lentamente por um longo período de ausência de lei. Mas tudo isso inicia-se pela formação que se oferece a crianças e jovens. Até o momento nenhum estudo genético foi capaz de provar que qualquer ser humano nasce criminoso. Ao contrário, o que se sabe é que o ambiente e o convívio forjam o caráter e a conduta de cada ser humano.

A educação, seja ela familiar ou escolar, constitui um dos espaços privilegiados de condicionamento de posturas. Uma educação para a paz será essencialmente uma educação a favor da vida, uma educação ética. Para isso não basta apresentar à criança e ao adolescente, os fenômenos bioquímicos que permitem a uma pessoa sobreviver. Ao contrário, a complexidade que envolve o conceito de vida, exige a percepção de valores como tolerância, respeito, partilha e solidariedade. Um conceito a ser construído, portanto, como um exercício de aprendizagem em que cada ser humano compreenda que não há melhores ou piores, apenas diferentes.

Enquanto a cor da pele, a opção sexual, os gostos musicais, o tamanho da silhueta, servirem de instrumento de classificação de seres humanos seremos coniventes com tudo o que gera toda a sorte de violência. A tolerância ao intolerável faz surgir uma verdadeira legião de marginais que agridem pais e professores, torturam colegas, traficam drogas e exterminam pessoas. Além do ocorrido no Rio de Janeiro, fatos ditos isolados, ocorrem por todo o país.

A relação selvagem entre seres humanos, merece atenção nos momentos de se discutir educação e formação humanas. E uma das formas de diluir a selvageria presente e crescente em nosso contexto é apostar e principalmente investir numa nova forma de educar as pessoas. A pacificação pela educação será sempre mais segura e mais consistente. Promover a paz não significa estabelecer que cessem as divergências, os conflitos e as diferenças. Significa pura e simplesmente fazer cessar a violência manifestada através de atitudes preconceituosas, autoritárias, arrogantes e desumanas.

Afastando a violência das relações humanas é possível pensar em solidariedade, respeito, liberdade e democracia. Valores fundamentais para que se possa viver em paz. Uma paz social e planetária. Construir esta paz, pela educação é por sua vez um compromisso político e ético. Um compromisso com o futuro!

* Texto publicado na edição do Jornal do Médio Vale em 17.12.10

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Educação Libertadora: esforço, mérito e punição

Uma das funções mais belas e humanas da educação é a promoção da libertação de seres humanos. Esta libertação é quase um batismo. Na tradição católica costuma-se dizer que o batismo liberta do pecado original. Torna o sujeito membro de uma comunidade e por ela deverá viver! A educação libertadora surge com o propósito de romper com os grilhões que prendem o ser humano a sua bestialidade. Por bestialidade humana entende-se o caráter competitivo, agressivo, voraz e cruel que herdou-se dos instintos do passado.

O final do ano letivo para muitas crianças e adolescentes, é o momento de ganhar aquele brinquedo, fazer aquela viagem como recompensa pelo êxito de seu “esforço” nas rotinas de todo um ano, ou então de esparramar incontáveis justificativas pelo insucesso, apesar do “esforço”. Aos contemplados com a “punição” do insucesso a preocupação em justificar. Educadores, famílias e adolescentes, buscando elementos diversos para expressar culpas. Elementos de ordem médica, psicológica, mística surgem para justificar o óbvio. Não houve sintonia entre o que se ensinou, o que se aprendeu e o que realmente deve ser ensinado e aprendido.

O que se ensinou, em verdade se constitui numa repetição de enunciados que já eram conhecidos de nossos avós, com honrosas exceções. Pouco se problematiza, questiona e debate no contexto escolar. É preciso vencer conteúdos! E é bom que se diga que os educadores são induzidos a cometer este erro, por que por mais que se cobre uma educação inovadora, sabe-se que a aprovação em concursos, vestibulares, por exemplo, se dá principalmente pelo domínio dos tais enunciados.

O que se aprendeu, passa a ser materializado através de boletins, relatórios e sente-se que pretendem determinar a qualidade intelectual de crianças e adolescentes. As famílias não imaginam que seus filhos deveriam estar preparados para transformar a sociedade em que vivem, tornando-a includente e cooperativa. Em lugar de enunciados e conteúdos, valores e virtudes poderiam contribuir para a formação de sujeitos para esta nova sociedade. A maioria das crianças e adolescentes, até acreditam que seja possível e necessária esta transformação. Mas como nós educadores e pais também já tivemos este sonho, e este foi reprimido, acreditamos que devemos agir da mesma forma com eles.

Assim, o dito “esforço” corresponde a uma espécie de enquadramento, é “cair na real” como dizem. Diversidade, identidade, solidariedade e compaixão são considerados valores que enfraquecem o potencial competitivo do sujeito. E enfraquecem mesmo, pois estão diretamente ligados a cooperação, jamais a competição. O grande mérito está em ser competitivo, o melhor entre muitos. Haverá, naturalmente, um premiado e muitos punidos! O que assusta é exatamente isso: é natural que haja um vencedor e muitos derrotados!

O mérito está em ser o maior, e não o melhor! Ser o melhor não exclui, evidentemente a possibilidade de ser também o maior. Mas desta forma, para ser o melhor ( e o maior), é preciso saber partilhar, conviver, acolher e cooperar. É dar oportunidades iguais a quem é diferente. Em tempos em que a grande preocupação é com a sobrevivência do próprio planeta, incutir o espírito competitivo a aprová-los por isso, me parece a maior punição para eles e para o futuro.

O grande e verdadeiro esforço que nos resta empreender é o de libertar as futuras gerações daquilo que poderá aniquilá-las: a competição. A competição a que nos referimos, trata de um esforço em dominar a natureza, devastando florestas, solos e águas e cometendo verdadeiros genocídio contra índios, judeus e negros, para citar alguns exemplos.

Mas o que deve ser ensinado e aprendido? Há dúvidas quanto ao ensinar. Soa como se alguém pudesse transferir o que sabe. Mais do que isso, como se este saber, pudesse assumir a condição de verdade absoluta e que deva ser ensinado e aprendido sem qualquer mudança ou transformação. Em relação a aprender, é possível dizer que é um exercício que transcende a simples apreensão de informações. Trata-se de uma construção imersa em valores que permita a compreensão do individual e do coletivo, com duas dimensões que dialoguem entre si, e se forjem dialeticamente.

Assim, educadores, pais e adolescentes necessitam compreender que esforço, mérito e punição são mais do que simples palavras. Não são palavras que se aplicam a alunos em final de ano letivo, mas valores que poderão definir o futuro, inclusive a possibilidade de haver futuro! Parte da libertação que a educação poderá oferecer é a certeza de que é possível haver futuro, através da soma da diversidade de esforços.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Formação Virtual de Crianças

A presença da INTERNET e dos ambientes virtuais no cotidiano da humanidade é inegável. Transações bancárias, formação acadêmica, relacionamentos, comunicação, são apenas algumas atividades que podem ser concretizadas em qualquer tempo e em qualquer lugar do mundo, bastando um equipamento e um ponto de acesso a grande rede. E tudo isso pode ser feito por qualquer pessoa, independente de sua idade e de suas convicções. Por esta razão uma das grandes preocupações da atualidade é preparar nossas crianças e adolescentes para utilizar este recurso.

Por ser um espaço de circulação permanente e indiscriminado de pessoas a INTERNET é também um espaço de exposição. Nos ambientes físicos concretos é possível um controle maior, por serem mais limitados e por haver um contato presencial entre os envolvidos. Assim, era comum, os pais proibirem seus filhos de receber certos amigos em suas casas, ou de frequentar ambientes considerados impróprios. Mas em relação aos ambientes virtuais este controle é muito mais difícil. Sem sair de casa é possível trazer o mundo para dentro dela. A vizinhança já não são mais as pessoas a quem cumprimentamos e com quem conversamos naqueles minutos de folga ou caminhada pelo quarteirão onde moramos. A vizinhança é o mundo.

Se antes era preciso preparar nossas crianças a não aceitar alimentos e brinquedos de estranhos, agora é preciso ensiná-las e escolher o site mais adequado, a filtrar conteúdos. Algo muito mais complexo pela variedade de sites e conteúdos e principalmente pela falta de conhecimento dos pais sobre este novo mundo. Um mundo gigantesco e invisível. Mas, qual a possível solução para isso? Uma opção radical seria renunciar completamente à INTERNET, o que geraria um colapso, pois já não é possível imaginar o mundo real sem o virtual. Proibir o acesso de nossas crianças e adolescentes aos ambientes virtuais seria privá-los da possibilidade de se inserir verdadeiramente na sociedade real. Seria negar-lhes o direito de fazer parte do século XXI e depõe contra todas as concepções de inclusão social.

A solução me parece um tanto simples. Afinal, como aprendemos, em nossa infância a agir de forma correta, justa e digna? Quem nos ensinou a não aceitar presentes e agrados de estranhos? Certamente não foram livros, cartilhas ou tratados, mas o convívio familiar através do qual, diferentes valores serão apresentados e partilhados. Mais do que proibir, é preciso educar o ser humano a conviver. E hoje conviver significa também discernir conteúdos e ambientes.

O convívio, seja físico ou virtual, exige além de conhecimento, uma grande bagagem de valores, que podem e devem ser reforçados pela escola, mas que nascem no seio da família. O caráter intransferível da formação familiar é o que vai determinar a capacidade de conviver de forma saudável, seja num ambiente real ou virtual. Por esta razão, apostar na família ainda é uma forma de garantir que a formação real ou virtual possa consolidar valores farão de cada criança um sujeito livre, responsável e preparado para dizer não, não apenas para quem oferece um agrado, mas para quem atrai, mente, omite.

A escola tem seu papel nesta questão. Além de tratar de conceitos e conteúdos, poderá contribuir para que cada criança se torne um adulto capaz de discernir o certo e o errado. Para isso a escola deverá utilizar-se de valores éticos, para que cada ser humano possa perceber a melhor forma de agir. Assim escola e família, cumprirão o seu papel, e juntas formarão gerações capazes de conviver de forma respeitosa e solidária.

Texto publicado no Jornal do Médio Vale, na edição de 03.11.10.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Ética e complexidade no uso das mídias na educação: cabeças bem feitas e menos cheias

Em nome da modernização de métodos e estratégias educativas, diferentes teorias e políticas públicas são articuladas. Para avaliar o real impacto destas políticas, são estabelecidas metas relacionadas ao rendimento individual e/ou coletivo dos educandos, aumento no índice de aprovação, redução dos índices de evasão, etc. Percebe-se, portanto, uma avaliação direcionada a estatísticas e métodos quantitativos. Mas há valores que transcendem aos que podem ser mensurados por estatísticas e gráficos. Ética e complexidade são valores imensuráveis por métodos quantitativos de avaliação; encontram-se e podem ser compreendidos partindo-se de análises qualitativas do processo educativo.

As discussões de valores como ética e complexidade na educação são tão diversas e complexas quanto as múltiplas formas de tentar compreende-las. Uma das discussões é a que expõe a necessidade de se discutir o que e como deve ser ensinado, para que haja um resultado efetivo na aprendizagem e na efetiva (trans)formação do educandos. Neste sentido, as mídias figuram como um recurso de grande impacto e relevância quando da percepção complexa que envolve o ato de aprender. A ato de educativo não se constitui em mera transferência de informações, mas na condução de um processo de (re)construção permanente de seres humanos.

Se ao longo de décadas, teorias buscaram a melhor maneira de assimilar e acumular saberes, hoje a demanda deposita-se sobre a necessidade de se estabelecer uma (trans)formação concreta de quem aprende, pelo saber. Em outras palavras, não se quer “cabeças bem cheias”, mas “cabeças bem feitas”. Mudanças urgem diante desta nova concepção nos diversos campos tais como: metodologias de ensino, estratégias de aprendizagem e de avaliação. As mídias poderão contribuir acumulando saberes, permitindo aos cérebros ocupar-se com aquilo que apenas o ser humano é capaz de fazer: (trans)formar-se de forma auto-eco-organizativa.

Neste sentido é preciso afirmar que a condição humana de educadores e da educandos transcende a soma de suas múltiplas características individuais e/ou coletivas, e para compreende-la há que se buscar uma percepção sensível desta multiplicidade. Para tal, é impreterível reconhecer o elevado nível de complexidade que envolve o seu desenvolvimento individual. Neste sentido as mídias, como espaço de produção, divulgação e acúmulo de saberes e conceitos são também um espaço para instigar a superação destes saberes e conceitos, através de discussões dialéticas e complexas. Temas tradicionalmente abordados em disciplinas escolares, agora poderão motivar discussões inter e transdisciplinares, possibilitando não apenas a divulgação de saberes e conceitos, mas a sua construção coletiva e comprometida.

Esta construção exige dos educadores, a compreensão de que não há saberes exclusivos, isolados em disciplinas. Ao contrário, os saberes interagem, se completam, se somam e por isso se auto-constroem. Esta interação se dá através do reconhecimento da diversidade de opiniões e saberes e do respeito as diferenças entre conceitos. Para tal exercita-se a postura ética que culmina com o convívio e aceitação das diferenças, transformando-as em instrumento de consolidação de uma nova forma de educar, comprometendo a todos na busca de um objetivo comum e coletivo. Este comprometimento consolida-se pela concepção ética de que não há saberes maiores e menores, mais e menos importantes, mas apenas diferentes, com sua, identidade, historicidade e contextualidade.

Este comprometimento nos sugere a conduta ética como parte de um processo cujos limites pouco conhecemos (por isso não afirmamos que verdadeiramente existam). A mesma ética é também instrumento inerente à formação novas cabeças, não apenas recheadas de informações, mas inconformadas, sensíveis e corajosas. Derivadas desta formação identificam-se atitudes, condutas e convicções que evidenciam seu compromisso com a (trans)formação humana estabelecendo gerações mais sensíveis e solidárias, as cabeças bem feitas. Tal conduta qualifica o ato educativo, pois além de atuar na formação de seu público, permite ao sujeito se auto-eco-organizar assumindo para si a autoria de sua própria existência.

O educador e a educadora, antes vistos como professor e professora responsáveis pela instrução formal da sociedade, agora assumem a responsabilidade de infundir hábitos sociais, de respeito ao próximo, de tolerância e aceitação da diversidade, de construção de seres humanos solidários e sensíveis. A cabeça estando menos cheia de informações e mais bem feita por sucessivas (trans)formações, estará mais atenta ao que de fato emana das necessidades dos seres humanos com os quais convive. Não se trata de diminuir o papel das mídias, mas ao contrário empreender a elas uma função de extrema importância à historicidade do saber e do conhecimento humano. Ela será co-responsável direta pela formação de seres humanos mais sensíveis em relação a sua condição.



* Texto publicado na Revista Gestão Universitária. Edição 250. (24.11.10)
** Texto publicado no site: http://www.abmeseduca.com/

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Diversidade, intolerância, ignorância e arrogância.

O mundo pós-moderno revela constantemente uma face perversa da humanidade: a intolerância. A intolerância se constitui na incapacidade de aceitar que nenhum ser humano é igual ao outro. O intolerante, por sua vez, revela outra face obscura do ser humano: a ignorância. Esta baseia-se na falta de conhecimento ou discernimento acerca de um determinado tema. Do intolerante ignorante poderá surgir outro sujeito: o arrogante. Mas afinal, qual relação se estabelece entre estes três termos e a diversidade? Explico.

A mídia noticia com certa freqüência fatos ligados a prática de atos de desrespeito e intolerância cometidas por pessoas ou grupos que defendem ideologias ou opiniões já condenadas pela humanidade e pela história. Movimentos nazistas espalhados pelo mundo, defendem a erradicação de certas etnias; outros perseguem adeptos a credos ou seitas religiosas; outros praticam o desrespeito a diversidade política. Há quem se dê ao papel de não saber conviver com a diferença de gostos artísticos, culinários, etc.

Em outros tempos, conviver com a diversidade religiosa, artística e política era considerada uma virtude, mas quando a humanidade percebeu que nenhum ser humano é igual ao outro, países como o Brasil, estabeleceram leis que obrigam as pessoas a conviver respeitosamente com o diferente. Leis como os estatutos da criança e do adolescente, da igualdade racial e do idoso, impõe que estes grupos sejam tratados de forma digna por toda a sociedade. Assim, o intolerante não é apenas uma pessoa de poucas virtudes, mas alguém que destoa da lei e do bom senso que regem nossa sociedade.

A intolerância aos diferentes, não surge espontaneamente. Tem como berço a ignorância absoluta de quem se recusa a perceber que o mundo não se resume a si próprio. Pessoas desprovidas de humildade e bom senso manifestam suas opiniões como sendo verdades absolutas, únicas, contra as quais não aceitam qualquer contraponto. Assim a intolerância nascida em berço esplendido de ignorância, induz a arrogância.

A ignorância, sentimento medíocre que faz o seu portador, emitir opiniões e estimular atitudes preconceituosas, gera sofrimento, dor e até morte. O deplorável papel do sujeito intolerante-ignorante-arrogante caracterizou-se, através da história, por sua violência e profundo desrespeito à vida. Graças a este tipo de sujeito, num passado recente, indígenas foram mortos, judeus massacrados e negros escravizados.

O que se observa, através de manifestações sutis pela mídia, é que ainda convivemos com pessoas incapazes de aceitar o fato de que há quem pense diferente. Ao contrário, consideram os diferentes menores, medíocres, ordinários e até ridículos. Sua arrogância revestida de preconceitos os convence de que seu exemplo representa uma esperança de salvação para o resto da humanidade.

Pregar a tolerância e o convívio respeitoso entre os diferentes não é uma virtude de poucos, mas um dever coletivo. Nenhum ser humano é menor por não pensar conforme a maioria, por pertencer a uma determinada manifestação religiosa, por ser desta ou daquela origem étnica. O que embeleza o convívio e a existência de cada ser humano são as suas peculiaridades, as suas diferenças. Celebrar a diferença e procurar fazer diferente sempre que possível é pois, um ato de humanidade e um exercício de humildade.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Educação de crianças e adolescentes

Muitos colegas educadores afirmam que crianças e adolescentes não gostam de educação, não são educados, etc Pessoalmente prefiro não acreditar nisso. Ao contrário, acredito sinceramente que não há educação sem crianças e adolescentes. Mas então o que estará acontecendo com eles? O que lhes causa tanto desprazer? A reflexão sobre o tema é profunda e não se esgota facilmente. Ao contrário, deve ser permanente para que a educação e sua relação com as pessoas se torne sempre mais significativa.

Enquanto a educação formal for apenas um repasse de conteúdos e os educadores, mediadores entre estes conteúdos e os educandos, o ensino será apenas um ritual. E convenhamos, rituais em que cada gesto é previsível, determinado e imutável tornam-se pouco atrativos à quem se vê descobrindo a intensidade e o prazer de estar vivo. Ler ou decorar um conteúdo, fazer exercícios de fixação e responder a uma prova nem sempre intensificam este prazer.

Significa então que não se pode exigir, cobrar e avaliar nossas crianças e adolescentes? Ao contrário, é preciso desafiá-los, expô-los a conflitos, chamá-los a discussão. Mais do que responder perguntas, é preciso que eles saibam compreender e resolver problemas. Para isso é preciso contar com sua criatividade, curiosidade, sinceridade e sensibilidade. Neste sentido a criança e o adolescente se sentem presentes no que ocorre numa sala de aula. Passam de expectadores a atores de um espetáculo que não termina como sinal de encerramento de uma aula.

Mas esta é a educação formal. Precisa ser refletida por profissionais, que estejam atentos e constantemente dispostos a se questionar, se perguntar sobre “Que educação queremos para nossas crianças e adolescentes?”. Ao educadores também cabe o prazer de estar em sala de aula, sentir-se autor de sua história e de sua participação na vida de crianças e adolescentes. um educador autônomo, sensível, ético e comprometido com a valorização da vida. Da sua vida e a de seus alunos.

Mas não podemos nos reportar apenas a educação formal num momento de discussão como esta. Para que a educação formal oferecida pela escola, seja vista como uma necessidade e como um desafio construtor de novos tempos, é preciso que a criança chegue a escola com outra concepção desta instituição. E tudo começa no momento em que os pais decidem inscrever os filhos na educação infantil. Estudiosos afirmam que este período de formação é fundamental para determinar o futuro do sujeito, seus valores, suas convicções e suas posturas.

Para muitos por necessidade ou por conveniência, cabe a educação infantil (creche) acolher a criança para que lá permaneça enquanto seus pais possam trabalham ou desenvolvam outras atividades. Para eles basta que a instituição ofereça cuidado, alimentação e atividades lúdicas. Esta mesma concepção parece continuar ao longo dos outros períodos de formação de crianças e adolescentes.

Desta forma se a família, como ocorre em muitos casos, inserir na formação de seus filhos a importância real da escola, e esta corresponder a esta expectativa crianças e adolescentes verão na educação uma grande fonte de alegria e prazerosidade. Assim estar numa sala de aula não será um sacrifício, um dever, mas um momento esperado, desejado e intensamente vivido. Por isso é sempre importante lembrar que crianças e adolescentes não são apenas alunos e freqüentadores de uma escola, mas filhos pertencentes a uma família.

* Texto publicado na edição de 05 de novembro de 2010 do Jornal de Médio Vale.

sábado, 23 de outubro de 2010

Analfabetismo e democracia

Um dos dramas mais vergonhosos que acomete parte da população brasileira é o fato de não saber ler ou escrever o próprio nome. O analfabetismo atinge a cifra dos 14 milhões de pessoas acima de 15 anos de idade. Outros 34 milhões de brasileiros sabem soletrar e desenhar algumas palavras mas não conhecem seu significado, caracterizando-se como analfabetos funcionais. Somados são cerca de 48 milhões brasileiros vivendo num outro mundo, sombrio, misterioso.

Se considerarmos o fato de que estes brasileiros estão na faixa etária em que é permitido votar, conclui-se que correspondem a cerca de 35,5% do eleitorado brasileiro. Assim mais de um terço dos votos está nas mãos de quem não conseguirá discutir com profundidade a melhor opção para o seu futuro num momento decisivo como ocorre em tempos de eleição.

Mais grave do que isso, são pessoas incapazes de se comunicar e de se fazer ouvir. Permanecem num silêncio ensurdecedor e são por isso, facilmente manipulados por estratégias de propaganda que os transformam em meros bonecos de ventríloquos. Preocupa o fato de que diante desta constatação não se vislumbram políticas públicas que acabem definitivamente com este problema.

Antes de questionar os motivos reais por que ninguém se compromete efetivamente na resolução deste problema vamos apresentar alguns números. Segundo o professor e senador Cristóvam Buarque, se adotássemos o Método Paulo Freire de alfabetização, cada pessoa poderia ser alfabetizada em cerca de 45 dias. Em relação a isso é preciso dizer que este método já foi elaborado e aprovado nos anos de 1960, mas foi abortado com a Revolução de 1964.

Segundo o professor Cristóvam cada aluno, para ser alfabetizado, custaria cerca de R$ 300,00. Considerando os 48 milhões de brasileiros que deveriam dispor do direito de serem alfabetizados seriam necessários R$ 10,2 bilhões. Parece um valor exorbitante, mas veremos que não é bem assim. Segundo a revista Exame, o governo federal arrecadou em 2009, cerca de R$ 698 bilhões. Assim, o valor necessário para erradicar o analfabetismo no Brasil corresponde a 1,46% do que é arrecadado num único ano (isto apenas na esfera federal).

Além disso, é preciso dizer que este gasto acorrerá apenas uma vez e em etapas. Assim, por exemplo, se um presidente da república quiser poderá utilizar cerca 0,4% da arrecadação anual ao longo de seu mandato e poderá entregar uma nação com toda a sua população lendo e escrevendo. Diante disto é preciso analisar com mais profundidade o problema. Manter esta legião de alienados serve aos interesses de quem? Será que há quem acredite que existem pessoas que não desejam ou não são capazes de aprender a ler e escrever? Usando e velha metáfora, por que nossos dirigentes preferem prometer o peixe pronto a se comprometer a ensinar as pessoas a pescar?

Enfim, a democracia será construída partindo de princípios e garantias elementares. Ler, escrever, comer, vestir e conviver em paz, são direitos inquestionáveis mas que foram negados ao longo de séculos de história. Assim como grandes tragédias comovem, a tragédia do analfabetismo deveria sensibilizar a nação. Os números mostram que reivindicar a erradicação do analfabetismo, não representa desejar o impossível. É apenas exigir que a nação do futuro seja construída sobre alicerces seguros e sólidos.

Enquanto algo elementar como saber ler e escrever for um sonho, uma utopia, não temos o direito de projetar o futuro. por mais aprazível que seja sonhar e por mais confortável que seja o “berço esplêndido” em que nos encontramos, é preciso acordar! Os séculos de dormência nos conduziram a um perigoso estado de passividade sobre o qual construímos nossa democracia. É preciso uma grande revolução.

A grande revolução democrática não comporta golpes políticos, perseguições ou imolações. Trata-se de uma revolução contra o conformismo, a estagnação e a aceitação passiva da negação de direitos. Se a matemática prova que acabar com o analfabetismo representa um investimento ínfimo, é preciso que sensibilidade, coragem e vontade política se juntem pela dignidade de todos os brasileiros e brasileiras.

*Publicado na edição de 29.10.10 do Jornal do Médio Vale

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Por um educador...

O 15 de outubro celebra formalmente o dia do professor. Não é de se estranhar, que o magistério tenha um dia para homenagear seus profissionais. Uma formalidade! Algo que se assemelha a tantas outras datas em que alguns oportunistas nos dizem que somos esperança, força e que fazemos a diferença. Algumas famílias que renunciaram a sua condição e dever de contribuir na formação de crianças e adolescentes apostam no profissional da educação, como um vocacionado a assumir a paternidade e a maternidade de seus filhos.

Em hipótese alguma poderemos assumir a condição de segunda família de qualquer ser humano. Família é uma só. Se ela não existir, não há quem a substitua. Pai e mãe são únicos e insubstituíveis. Esta sim é uma vocação intransferível. Cumpre-nos neste sentido o dever de fortalecer valores e princípios, para que nossos alunos sejam capazes de lutar para construir suas próprias famílias.

Mas é preciso dizer que o exercício desta profissão traz grandes experiências de vida. Experiências únicas. Ver uma criança desenhar as primeiras letras, identificar e compreender as primeiras frases. Contextualizar saberes, refletir sobre os sabres que a humanidade acumulou e participar da construção de outros. Enfim, experiências que se vivenciam participando ativamente de novas descobertas. Ao educador não cabe apenas o papel de mediador, mas de autor de uma nova forma de dar esperança às futuras gerações.

Mas dar esperança não é o suficiente. É preciso fazer com que os cidadãos que formamos se sintam capazes lutar por ela. Como dizia Paulo Freire, é preciso “esperançar”, ou seja, construir esperanças e fazer o que for possível para que estas se tornem uma realidade e fomentem outras.

O contato com centenas, e até milhares de pessoas, faz de nós educadores pessoas que necessitam assumir compromissos permanentes. Um compromisso com valores éticos, humanos e solidários para formar seres humanos sensíveis e indignados com o mal, com o erro e com o injusto. Afinal não podemos esquecer que mercenários, corruptos, ditadores e facínoras passaram por educadores, escolas e estes apresentaram saberes sem lhe dar uma formação completa. Por outro lado a escola e os educadores podem e tem feito do saber, instrumento de libertação da miséria e da violência, reconstruindo vidas.

Assim, o simbólico dia do professor, poderá servir para importantes reflexões sobre a real importância do educador contemporâneo. Um momento em que a sociedade, através de suas lideranças e seus pensadores poderá nos oferecer novas esperanças. Esperanças de dignidade e respeito. Congratulações aos colegas educadores!

*Publicado na edição do Jornal do Médio Vale em 15.10.10

sábado, 9 de outubro de 2010

Entre palhaços, ditadores e facínoras

A eleição do último dia 03 revelou, além dos resultados já esperados e descritos por pesquisas, algumas viradas surpreendentes, vitórias esmagadoras e um amadurecimento democrático privilegiado. Privilegiado por que estamos diante de um processo de consolidação democrática que nos faz melhores não apenas como eleitores mas como cidadãos. Dito isto é preciso dizer que um dos fatos de maior repercussão nacional e internacional acerca desta eleição foi a eleição do palhaço Tiririca.

De fato não me parece que este cidadão tenha conquistado uma legião de eleitores pelos seus feitos patrióticos, pelo seu passado político ou por ter apresentado propostas inovadoras e diferenciadas em relação aos demais candidatos. Não se pode dizer se foi um voto de protesto, de deboche ou de pura falta de opção por parte do eleitor paulista. Há quem o acuse de ter fraudado um documento que comprova sua capacidade de ler e escrever e se isto aconteceu, espera-se que justiça seja feita. Afinal falsificação de documentos é um crime seja qual for o motivo.

Mas sinceramente não vejo a eleição de um palhaço como um problema grave de nossa democracia. Em primeiro lugar por que a profissão de palhaço exercida eticamente é tão digna quanto qualquer outra. Em segundo lugar se há palhaços de quem devemos desconfiar, há também profissionais nas mais diferentes áreas manchando suas biografias. Prova disso é o resultado da tentativa de aplicação da “Lei da Ficha Limpa”.

Por falar nisso, o que leva legiões de eleitores a escolher pessoas já condenadas para ocupar cargos públicos? Será que ninguém disse a eles que a Lei da Ficha Limpa destina-se a barrar candidaturas de pessoas que estão em débito com a nação? Afinal, o que explica aceitar que uma pessoa legalmente impedida, possa assumir um elevado cargo público com o aval de milhares de outras pessoas? É preciso dizer, a título de informação, que se o amigo leitor desejar disputar um concurso público para qualquer função exige-se dele idoneidade e nenhum débito com a justiça, o que é absolutamente correto e justo.

O que surpreende também, é a tentativa internacional de desmoralizar a democracia brasileira quando surgem manchetes como: “Brasileiros vão às urnas eleger um palhaço”. Teriam moral para falar da eleição de um palhaço, quando recentemente elegeram alguns dos piores ditadores e facínoras dos nossos tempos? Ou se esquecem que algumas das mais sangrentas guerras de nossos tempos são comandadas por líderes eleitos pelo voto popular de muitas democracias mundo a fora? Sinceramente não acredito que a maioria dos homens e mulheres que vivem nestas democracias desejem a guerra, a violência e o terror. Portanto, penso que cometeram equívocos que o amadurecimento democrático haverá de ajudá-los a concertar.

A respeito da eleição do palhaço, não gostaria de afirmar que foi um equívoco ou uma precipitação, mas é bom que se diga, que apesar desta discussão, nossa democracia não apenas sobrevive, como se fortalece. Testemunhamos a vitória de muitas pessoas de bem, pessoas que de fato farão a diferença nos próximos anos e quem nos cabe cobrar ações que promovam qualidade de vida em nossas cidades. E se ainda cometemos erros, que nos permitam cometê-los, pois muito pior seria se não nos deixassem tentar acertar.

Quanto a aplicação da “Lei da Ficha Limpa”, espera-se que seja aplicada de forma correta, sem atropelos e com a devida observância dos mais refinados princípios legais para que não sejam cometidas injustiças. Espera-se dos tribunais superiores a retidão e a coerência costumeiras, para que a democracia e o exercício pleno da cidadania se consolidem a cada dia em nossa nação.

Confiante na justiça e na legalidade, acredito que nós eleitores merecemos respeito pelo que fizemos e atenção pela confiança que depositamos em homens e mulheres eleitos e na democracia de nosso país. Certamente muitos que nos criticam mundo a fora o fazem por que se recusam a aprender conosco.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Visita à EEB Frei Lucínio Korte: uma experiência interdisciplinar e interinstitucional

Um grupo de alunos da EEB Teófilo Nolasco de Almeida, acompanhados pelos professores Josimar Tais (história) e Nilton Bruno Tomelin (biologia) estiveram na EEB Frei Lucínio Korte, em Dr. Pedrinho, no último dia 23 de setembro. O objetivo da visita foi a apresentação de dois trabalhos que serão apresentados na Feira Regional de Matemática e Ciências, que irá ocorrer em Timbó no dia 30 de setembro.

Um dos trabalhos, tem por tema, a “Era Biônica” e trata da utilização de recursos tecnológicos para suprir membros amputados por acidentes, anomalias ou enfermidades. A tecnologia utilizada para a produção dos chamados membros biônicos permite que o usuário controle movimentos e execute tarefas cotidianas. Também há tecnologia que permite recuperar parte da capacidade visual e auditiva, proporcionando qualidade de vida e dignidade a pessoas vistas como deficientes.

O segundo trabalho tem como tema, o Crack, droga muito comum nos tempos atuais e que tem tido penetração constante entre os adolescentes. O tema assume relevância especial em função da necessidade de prevenir o consumo desta, que é uma das mais violentas e agressivas das drogas conhecidas. Mais do que simplesmente discutir o assunto, é preciso compreender o compromisso pessoal de cada jovem de se afastar de qualquer vício e de qualquer substância que possa inviabilizar sua qualidade de vida.

Do ponto de vista pedagógico, esta atividade permitiu um intercâmbio entre as duas escolas, além de servir como uma espécie de ensaio para a apresentação da feira, serviu para que pudessem expor novos conceitos em relação ao tema. Os alunos da EEB Frei Lucínio Korte, por sua vez demonstraram grande interesse pelos temas e acompanharam atentamente as apresentações.

Esta experiência interdisciplinar e interinstitucional oportunizou aos visitantes conhecerem a dinâmica da escola visita merecendo destaque a Rádio FLK. Esta rádio operada por alunos, professores e gestores da EEB Frei Lucínio Korte serve para divulgar notícias, eventos e músicas durante os intervalos de recreio e pela INTERNET em tempo real e integral.

Cabe também um agradecimento especial aos alunos Anderson, Daniela Larissa, Luciane, Priscila e Thaysa, pelo empenho e grande dedicação na organização dos trabalhos e apresentações dos temas propostos.

Agradecemos aos professores e a direção da EEB Frei Lucínio Korte pela recepção calorosa, de modo especial ao diretor professor Éder Fronza.

Quem sou eu

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Benedito Novo, Santa Catarina, Brazil
Sou Mestre em educação, graduado em Biologia e Matemática, professor da rede estadual de Santa Catarina, com experiência em educação a distância, ensino superior e pós-gradução. Sou autor e tutor de cursos na área da educação no Instituto Veritas (Ascurra) e na Atena Cursos (Timbó). Também tenho escrito constantemente para a Coluna "Artigo do Leitor" do "Jornal do Médio Vale" e para a revista eletrônica "Gestão Universitária". Fui diretor da EEB Frei Lucínio Korte (2003-2004) e secretário municipal da Educação e Promoção Social de Doutor Pedrinho (2005). Já atuei na rede municipal de ensino de Timbó. Em 2004 coordenei a campanha que conduziu à eleição do Prefeito Ercides Giacomozzi (PMDB) à prefeitura de Doutor Pedrinho. Em 2011 assumi pela segunda vez, a direção da EEB Frei Lucínio Korte.